A insuficiência da inteligência (sempre artificial)

Baixe aqui o texto integral do ensaio “A insuficiência da inteligência (sempre artificial)”, em formato de e-book: E-book Insuficiência da Inteligência

Em um momento em que a inteligência artificial se consolida como ferramenta estratégica em empresas, edifícios e cidades inteligentes, a filósofa Flavia Bruno* propõe uma reflexão incômoda, porém necessária: a tecnologia baseada em inteligência não amplia, por si só, a capacidade humana de pensar, criar ou decidir melhor. Ao contrário, pode aprofundar reduções, automatismos e dependências
que impactam o trabalho, a gestão e a própria vida contemporânea.

*Graduada, mestre e doutora em Filosofia pela UFRJ. Professora adjunta da FSB/RJ e da UCAM-Centro.

No centro do debate sobre tecnologia e futuro do trabalho, Flavia Bruno faz uma afirmação desconcertante: toda inteligência, inclusive a humana, é essencialmente artificial. Quando falamos em inteligência artificial é porque buscamos fazer uma oposição com uma inteligência natural. Segundo Flavia, a Filosofia nos ensina que toda inteligência possui um caráter superficial, já que, para compreendermos o mundo, é preciso abandonar o que é singular e divergente para trabalhar com o que é geral e regular, classificando e categorizando tudo o que conhecemos. Sendo assim, podemos dizer que toda inteligência é marcada pelo artificialismo, pois opera por abstrações e classificações que simplificam a realidade. “A inteligência humana é uma faculdade prática e útil à ação, mas paga um preço alto: ela sacrifica a complexidade da vida em nome da previsibilidade, daquilo que pode ser repetido”, afirma Flavia Bruno.

Flavia ainda propõe uma outra distinção: a diferença entre a “inteligência interna”, a faculdade humana que, segundo o filósofo francês Henri Bergson, evoluiu a partir do instinto; e uma “inteligência externa”, representada pelas tecnologias que hoje ampliam as capacidades humanas. Para ela, essa inteligência externa, celebrada como símbolo de eficiência e progresso, é recebida com tanto entusiasmo que raramente refletimos sobre seus efeitos colaterais. “Empolgados com essa festa, embriagados em suas facilidades, deixamos de questionar seus limites e impactos”, alerta Flavia, lembrando que o uso desenfreado dessas ferramentas contribui para a desnaturalização da política, o adoecimento psíquico, a degradação ambiental e a perda da nossa capacidade de criar e renovar a existência.

O progresso e o fracasso de sua realização

Desde a modernidade, a humanidade se apoia na crença do progresso, na convicção que a difusão das ciências e das técnicas iria produzir dias melhores. De acordo com Flavia, “estaríamos frente a uma evolução sempre crescente de instrumentos, recursos e aparato técnico que nos ajudariam a triunfar nesse propósito. A assim chamada inteligência artificial (IA) nada mais seria do que fruto desse processo e, com ela (ou a partir dela), estaríamos vivendo supostamente o auge da vida humana”. No entanto, Flavia alerta que as promessas de progresso técnico para um mundo mais justo, igualitário e democrático não se concretizaram: “Ao contrário, a despeito de todo o desenvolvimento tecnológico existente, a cada vez aprofundam-se mais e mais as desigualdades, os temores frente à sobrevivência e um profundo adoecimento psíquico”.

Essa crítica ganha contornos concretos: apesar da expansão de aplicativos, sensores e sistemas automatizados, a promessa de mais liberdade, igualdade e bem-estar não se concretizou. No mercado de trabalho, observa-se a substituição de postos, a intensificação da vigilância e o aumento do adoecimento psíquico. “Mais conectados, facilitados por meio de milhões de aplicativos disponíveis em todas as plataformas, experimentamos, sem dúvida, uma nova velocidade no nosso tempo, mas o que é conquista para a vida prática não é necessariamente uma conquista nem para a prática de pensar nem para a consolidação da democracia ou de melhores condições de trabalho e de vida”, destaca a autora.

A vigilância digital redefine fronteiras de privacidade, e o capitalismo de dados (como nas redes sociais), descrito por autores como Shoshana Zuboff e Byung-Chul Han, converte a experiência humana em mercadoria. A promessa moderna do progresso técnico é de maior felicidade e liberdade, mas o que se assiste é manipulação a partir de dados de comportamento, rotinas de trabalho e padrões de consumo, que se tornam matéria-prima para previsões e controle, em um mercado de comportamento futuro. “Vivemos sob uma lógica de acumulação sem precedentes, em que nossas emoções e comportamentos são mapeados e vendidos como previsões de mercado”, diz.

No neocolonialismo digital que caracteriza o capitalismo de vigilância, acontece semelhante conquista territorial por meio de declarações (termos de serviço), por exemplo, do Google — que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita a ser explorada, convertida em dados comportamentais cujo conteúdo será não apenas de seu conhecimento, mas de sua propriedade, podendo ser ignoradas quaisquer considerações sobre direitos ou interesse dos indivíduos.

Automação, materialidade e sustentabilidade

Flavia desmonta algumas ilusões sobre a IA. A primeira desmistificação é sobre a ideia de que os sistemas de IA são autômatos, racionais ou capazes de discernir o que quer seja sem que sejam treinados exaustiva e intensamente para isso. Primeiro, é preciso lembrar que nenhum algoritmo é neutro, todos refletem interesses econômicos, políticos e culturais. “Ao contrário, é preciso grande investimento de capital, inclusive humano, para sua concretização, e, como desdobramento disso, seus sistemas são projetados para servir aos interesses dominantes. Assim, há forças políticas, históricas, econômicas e culturais que moldam o resultado que acreditamos ser puramente técnico e neutro”, observa. Os sistemas são treinados para servir a quem os financia, e com isso reforçam hierarquias, estereótipos e desigualdades, ao invés de abarcar a complexidade inerente à subjetividade humana.

Outra ilusão a ser desfeita é sobre a materialidade da IA, que, frequentemente, fica esquecida sob o imaginário da “nuvem”, como se ocorresse em uma indústria essencialmente “verde” e sem socorro material. Data centers, mineração de lítio, consumo massivo de energia e água fazem parte da base concreta da IA. “Não existe inteligência artificial sem extrativismo, sem exploração ambiental e sem trabalho humano precarizado”, afirma Flavia. Os exemplos são irrefutáveis: o lítio usado em baterias, o gasto de água para resfriar servidores e o trabalho precário em micro tarefas digitais. Segundo ela, a indústria tecnológica transfere esses custos para comunidades invisibilizadas, enquanto vende eficiência e conveniência ao usuário final. “Não há IA sem exploração humana”, enfatiza.

Ironicamente, usa-se mesmo a IA para propor iniciativas ambientais sustentáveis ou meios de combater as dificuldades climáticas, mas é necessário uma imensa quantidade de energia para que se possa gerar essas predições. Mas, como o dano ambiental causado com a previsão de “como evitar dano ambiental” não é visível ou explicitado, o usuário sequer percebe essa ironia.

O cansaço da informação

Se a inteligência como faculdade interna já impede a criação e a emergência do novo, como faculdade externa (ou artificial) exclui por completo o radicalmente diferente, o inauditamente novo. Nada se abre, nada novo entra no mundo. Não há paixão pela diferença e, portanto, não há possibilidade de inventividade e descoberta de novos horizontes. A inteligência, ao buscar estabilidade e repetição, elimina o fluxo e a mudança. Essa lógica, quando transferida para sistemas tecnológicos, se radicaliza. “A IA recompõe o mundo de forma esquemática. Ela não descobre, apenas reproduz padrões do passado”, diz Flavia. Na prática, isso significa que as decisões são baseadas em dados históricos, reforçando vieses sociais, econômicos e culturais já existentes, padrões já conhecidos, classificando e rotulando todo tipo de coisa, em uma velocidade inumana, o que é confundido com super capacidade, eficiência, rigor e verdade. “No mundo da inteligência externa, o agir cede lugar à operação. A hesitação virou defeito, quando deveria ser o espaço do pensamento. A IA calcula, mas não deseja. E sem desejo não há criação, apenas repetição do mesmo”. Para Flavia, a operação algorítmica (que é eficiente, mas estéril) substitui o ato de pensar, que é, por natureza, hesitante, criativo e atravessado pelo desejo.

Se o trabalho e o ambiente sofrem com o excesso tecnológico, o sujeito também adoece. Flavia recorre ao conceito de Byung-Chul Han para descrever a exaustão cognitiva de um mundo hiperconectado. “O excesso de estímulos, impulsos, postagens, informações acaba por destruir e fragmentar a atenção e, diferentemente do que possa parecer a princípio, a atenção multitarefa não representa nenhum progresso civilizatório, mas, ao contrário, um retrocesso”, explica. Na vida selvagem, o ser humano precisava estar atento a tudo, sob pena de virar presa fácil a qualquer predador. O desenvolvimento civilizatório significou o relaxamento dessa atenção, posto que se passou a vivenciar uma menor preocupação com a sobrevivência. Hoje, o homem retrocede a esse modo de vida selvagem, com uma hiperatenção que se desdobra em multifocos e fontes de informação. Não é um ganho espiritual ou mesmo intelectual, como se pode imaginar, mas pura inquietação, sem descanso, exaurindo o sujeito e o levando mais facilmente ao tédio. O homem hiperativo é o homem ideal para o mundo que exige uma produtividade sempre crescente, o homem exausto de si, esgotado psiquicamente.

A crítica de Flavia também mira a confusão entre informação e conhecimento: “saber exige experiência, tempo e risco. A informação é apenas acumulação de dados, disponível e superficial”.

Para além da inteligência

Ao final de sua análise, Flavia Bruno faz um convite que é também um manifesto: “Não se trata de desprezar ou diminuir a inteligência. Ela cumpre a função a que se pretende: basta pensar o quanto nossa vida prática ganhou em tempo e facilidade com os recursos tecnológicos existentes. Efetivamente os aplicativos indispensáveis hoje na vida de cada um de nós auxiliam e simplificam nossas operações cotidianas e já não se pode viver sem eles. Mas trata-se sim de dizer que sua funcionalidade tem o limite do mecanicismo e do esquematismo, portanto, há toda uma extensão da vida que não se deixa capturar por ela, e o homem, a cada vez que se deixa convocar menos pela vida, perde em grandeza, em crescimento e em criação. […] O caminho da criação é também o caminho dos instrumentos que podem nos auxiliar quando tudo quebra, quando tudo se trai e já não temos controle do que se avizinha. Quando nos descobrimos tristes ou impotentes frente ao modo como organizamos a experiência, só quebrando o ordinário, o autômato, o comum e o banal podemos ir mais longe na vida. Não temer o infamiliar e o insuspeito, desmentir o estabelecido e respirar o ar que é próprio dos não cativos”, finaliza Flavia.

 

Flávia Bruno
Filósofa

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe!

spot_img

Últimos artigos