Inteligência artificial e a Educação

Entrevista completa com o Prof. Dr. Moacyr da Graça, Professor da Escola Politécnica da USP desde 1975

Prof. Moacyr da Graça

1.Como a inteligência artificial é abordada na formação em Facilities Management nas suas instituições?

Agradeço o convite e procurarei colocar as respostas no contexto de FM nos dias de hoje.

A IA – Inteligência Artificial é, a meu ver, mais um instrumento criado pela tecnologia desde o advento dos computadores em meados do século passado. Desde então, presenciamos uma verdadeira revolução na maneira pela qual fazemos todas as coisas, gerando com isso mudanças significativas no comportamento das pessoas e consequentemente no funcionamento da sociedade como um todo. Este caminho é inexorável e, via de regra, causa grande perplexidade pelas inovações que apresenta, trazendo desconforto a todos causado pelo receio do desconhecido.

Fazendo uma retrospectiva, eu aponto alguns exemplos mais marcantes de tais inovações como: computadores de grande porte, computadores pessoais, automação de equipamentos, redes locais de computadores, telefones celulares, smartphones, robots, e… IA. Essas inovações, ainda que causando velozes transformações nos deixam perplexos e nós, os usuários, vamos absorvendo os efeitos em nossas vidas de maneira errática e adaptativa. Da inovação ao costume do uso de processos transformados (às custas de decepções) aflora a sensação de falta de controle! Ainda não aprendemos lidar corretamente com: avalanches de dados, excesso de informação, desinformação, crimes digitais, educação, emprego na era digital, etc…  Exemplos de transformações sociais são: comunicação em tempo real, redução da mobilidade, aumento de conflitos, objetificação dos indivíduos, humanização das coisas, sensação de falta de controle, risco de controle, entre outros.

A sociedade dos dias de hoje ainda não aprendeu a conviver em sistemas sociais complexos que se transformam em velocidade jamais observada. Aqui deve estar  o foco das atenções!

Sistemas complexos, constituídos por pessoas, devem ter em si mesmos as fontes de regeneração de comportamento para adaptação contínua às transformações. Esta é a grande transformação! Tentativas de controle de sistemas sujeitos a autorregulação serão sempre frustradas levando à ruptura em algum momento, pois tais sistemas não podem suportar o nível de tensão e a energia acumulada. Fazendo uma comparação, tudo se passa como uma panela de pressão que necessita de uma válvula de alívio

Cremos que leis resolvem problemas, que comando e controle resolvem todas as situações, que uns são melhores do que outros, e assim vamos nos enganando a nós mesmos. O desenvolvimento social é o único caminho a trilhar. Infelizmente só é possível a partir do desenvolvimento dos indivíduos.

Nesse ponto, ainda estamos engatinhando!

O computador pessoal, o telefone celular e a Internet se tornaram meios para a “vida” no espaço digital, transformando sensivelmente os processos, os espaços em que vivemos e o comportamento das pessoas na sociedade moderna.

Ora, o que seria isso senão a principal razão da existência de Facility Management?

Lidar com eficiência e efetividade com a interação People, Place & Process com adaptação permanente às transformações da Tecnologia. Este é o papel, ainda incompreendido dos Facilities Managers na sociedade. Esse é o profissional que trabalhamos para formar, com capacitação para liderar transformações e multiplicar o seu conhecimento. Precisamos que isso esteja acontecendo para que a vida se torne melhor nos espaços que ocupamos.

A IA, em meu ponto de vista, é mais um elemento tecnológico que, como tantos outros, traz consigo incerteza, potencial de melhoria e risco.

Assim tratamos o tema no ensino de FM.

2-Quais são as principais diferenças entre o ensino de IA no setor público (USP) e no privado (FS Educa)?

Eu diria que as principais diferenças não residem no fato de ser público ou privado, mas sim nos princípios que regem o comportamento daqueles que são responsáveis pela formação dos indivíduos e pela idoneidade e competência das instituições. A abordagem que temos na USP passa por ensino, pesquisa e serviço à comunidade, fortemente apoiada pela Tradição e Modernidade de mais de 130 de existência da Escola Politécnica. O curso de Gerenciamento de Facilidades, recém batizado de Gerenciamento de Facilidades Corporativas, concede aos seus concluintes o título de Especialista em Gerenciamento de Facilidades Corporativas, com certificado USP.

Este curso é pioneiro no mercado estando ativo desde 2002, isto é, há 23 anos.

Os profissionais formados estão hoje na direção de empresas de renome, na liderança de grupos associativos e atuando na educação em FM. Somos poucos para a demanda nessa área. Por outro lado, pouco que somos, temos sido muito atuantes, tanto os professores como ex-alunos. Praticamos formação em FM, o que é diferente de informação em FM ou treinamento em FM em temas específicos. O espaço a ser ocupado na educação em FM é muito grande. Há que se pensar em aumentar a consistência nas informações e discutir em sociedade os princípios fundantes que devem reger a educação em FM, a exemplo da Holanda. Usamos IA como meio eficiente para o aprendizado, fazemos isso sem que se produza engessamento intelectual, do desenvolvimento do raciocínio e da criatividade.

Encaramos o assunto com naturalidade voltando as atenções para o indivíduo e para a Inteligência Natural, usando IA como alavanca para melhoria do desempenho intelectual.

3-Como equilibrar o uso de IA, que aumenta o tempo de tela, com a prática presencial e a interação humana na formação?

A chave para a boa utilização de IA deve estar em compreender aquilo que desejamos obter com o seu uso de uma forma madura. Temos que procurar delinear os problemas que queremos resolver. Isso passa por entender os fins e os meios efetivos para atingir objetivos. A crença cega na IA, como solução final para todos os problemas, pode vir a ser extremamente destrutiva se não avaliarmos bem os impactos e os risco na utilização. Roda uma notícia, em jornal de grande circulação, que “Homem de 56 anos mata a mãe e se suicida após falar com Chat GPT”! A questão colocada anteriormente permanece e se torna evidente. Há um diferencial e grande descompasso entre a invenção e o que a sociedade faz com ela. Isso não é novo, acontece com armas, equipamentos, veículos, que por utilização equivocada trazem o mal juntamente com o presumido bem, mas… não podemos culpá-los!

Quanto mais tecnologia desenvolvemos mais teremos que cuidar dos humanos e devemos fazer isso com excelência. Temos muito a aprender!

4-Qual é o papel das boas perguntas e da lógica na formulação de prompts para obter respostas realmente úteis da IA no contexto de Facilities Management? Os alunos recebem algum treinamento específico para criar prompts eficazes e direcionados às demandas reais da profissão?

Reitero aqui o aspecto de que o foco do ensino e aprendizado no âmbito de FM em nosso campo de atuação não está na operação de processos, que são, meios para obtenção de objetivos. O ponto central da educação em FM, conforme praticamos, está na identificação de conceitos claros, de princípio básicos que possam estabelecer as bases atemporais onde os indivíduos possam construir o seu conhecimento, por sua própria iniciativa. Ensinamos a pescar, mas não damos o peixe.

Treinamentos são benvindos e úteis, porém efêmeros, utilizamos com cautela.

5-Como vocês enxergam a capacidade da própria IA de “aprender” com a interação contínua com o usuário, e quais são as implicações disso para o ensino em FM?

Aqui vou abordar a questão sob a ótica dos problemas que enfrentamos no ensino e no aprendizado FM.

O primeiro: Falta de formação básica de qualidade dos alunos.

O segundo: Falta de consistência profissional e visão clara da carreira do profissional de FM.

O terceiro: Falta de compreensão generalizada sobre a real natureza de FM e o papel de FMers tanto pelos profissionais quanto por usuários de FM.

O quarto: Dificuldade na assimilação do conhecimento diversificado pelos FMers, devido à real natureza de FM, para atendimento das demandas.

O quinto: Ansiedade e imediatismo do profissional na obtenção de resultados em um mercado de trabalho em organização e, por isso mesmo, com inércia perceptível e inconsistência nas respostas das expectativas.

Assim sendo, creio que IA, se não for bem utilizada, poderá trazer certas impropriedades no estabelecimento de conceitos uma vez que a base de conhecimento em FM é, ainda, bastante diversificada e incoerente.

Mas, se utilizada com espírito crítico, poderá ser extremamente útil para aqueles que, com atilada visão crítica, fizerem uso desta ferramenta extremamente poderosa.

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