Qualidade de Vida
Novas tecnologias, leis e responsabilidade socioambiental inspiram compromisso com a qualidade do ar que respiramos em espaços fechados
Foi-se o tempo em que preocupações com qualidade do ar nas cidades eram voltadas quase que exclusivamente para áreas externas. Com o aumento da quantidade de horas que passamos em ambientes fechados, os holofotes foram virados para recintos climatizados artificialmente, já que, segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, um adulto chega a permanecer 93% do seu dia entre quatro paredes, seja em escritórios, escolas ou universidades.
Com tamanha exposição à ventilação dos aparelhos de ar condicionado, empresas como a Shell Brasil Petróleo vêm investindo em estratégias para monitorar o quão salubre está o ar que seus colaboradores e visitantes respiram. Daniel da Silva, Gerente de Unidade Sodexo para o Contrato Shell, é um dos responsáveis por controlar os níveis de CO2 e umidade que podem abrir as portas para entrada de patógenos nas salas da multinacional de óleo e gás aqui no país.
“Sabemos que o acúmulo de CO2 pode causar, no mínimo, sonolência nas pessoas e que o aumento de umidade pode levar à proliferação de fungos e à pane de equipamentos. Daí a necessidade de instrumentos que possam nos ajudar a medir, com precisão, os parâmetros de temperatura e umidade e de concentrações de gases, materiais particulados e compostos orgânicos voláteis – aqueles residuais de produtos químicos”, argumenta Daniel.
Tecnologia a seu dispor
Um dos instrumentos utilizados nesta tarefa é a plataforma MilliClick IoT, tecnologia desenvolvida pela MilliCare Brasil, empresa multinacional de limpeza e higienização de superfícies têxteis “porosas”, como carpetes, persianas, divisórias e estofados. “Além de possibilitar a gestão diária de manutenção de todas essas superfícies, o MilliClick já tem embarcada tecnologia desenvolvida para controle remoto também das condições do ar, fornecendo, entre outras informações, demonstrativos microbiológicos e de segurança sanitária”, explica o CEO da MilliCare e Vice-presidente do Plano Nacional de Qualidade do Ar Interno (PNQAI), Paulo Jubilut.
O gerente Daniel lembra a importância do sistema MilliClick para uma atitude que precisou ser tomada a reboque dos efeitos da pandemia da covid-19: “como vários escritórios deixaram de ser frequentados, interrompemos o sistema de climatização para economizar energia e, após um tempo, verificamos a proliferação de mofo no mobiliário. Graças ao sensoriamento MilliClick, conseguimos quantificar os níveis da umidade causadora e detectar onde e quando ela aumentava, com acesso prático e bem didático aos gráficos de todos os indicadores. E, a partir desse conhecimento, passamos a ter decisões mais planejadas para evitar aferição de índices discrepantes e consequências indesejadas”.
Legislação para valer!
Apesar de ser um código “jovem”, prestes a completar 25 anos ainda em 28 de agosto de 2023 (a Portaria nº 3.523/98 foi a primeira a ser promulgada pelo Ministério da Saúde), nosso arcabouço legal sobre qualidade do ar interno já foi acrescido de páginas importantes. A última delas diz respeito à nova norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) nº 17.037, de 25 de abril de 2023, que, refinando legislações anteriores, vem determinar padrões referenciais mínimos das propriedades do ar em ambientes não residenciais e climatizados artificialmente, assim como valores máximos para contaminações desse mesmo ar por fontes de naturezas biológica, química e física.
De acordo com o coordenador da comissão de estudos de qualidade do ar interior do Comitê Brasileiro de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação e Aquecimento da ABNT (CB-055), Arthur Aikawa, “com a norma nº 17.037, novas tecnologias para tratamento e monitoramento da qualidade do ar interno ganharam destaque, ressaltando duas categorias extremamente importantes: a de diagnóstico e a de resolução. A primeira introduz ferramentas de monitoramento on-line para identificar e atuar, de maneira mais cirúrgica e contínua, sobre anomalias que afetem a qualidade desse ar. Já a segunda, por sua vez, abrange tecnologias de monitoramento em tempo real que permitam esse olhar permanente, bem como a prática de medidas corretivas sobre todos os problemas identificados”.
Um detalhe importante é que essa nova norma servirá de base para acompanhamento de marcos futuros já em fase de publicação, como o protocolo da ISO 16.000-40, de Sistema de Gestão de Qualidade do Ar Interno, que já está até traduzido em língua portuguesa. E, como revela o especialista Arthur Aikawa, estamos na corrente da maré que move o mundo: “nota-se a tendência global não apenas do uso de novas tecnologias, mas de transparência com o público ocupante, e dois exemplos nesse sentido são a obrigatoriedade da instalação de dispositivos de sensoriamento de CO2 em restaurantes na Bélgica e o projeto da cidade alemã de Hansestadt Lübeck de monitoramento em tempo real e disponibilização on-line dos dados de CO2 em todas as salas de aula de escolas da cidade”.
Mas a conversa sobre qualidade do ar interno especificamente nas escolas fica para a próxima edição desta revista… Respire fundo e acompanhe-nos!
Sabemos que o acúmulo de CO2 pode causar, no mínimo, sonolência nas pessoas e que o aumento de umidade pode levar à proliferação de fungos e à pane de equipamentos.
Daniel da Silva