PING-PONG
com Ícaro Fontan, O GUARDIÃO DOS BASTIDORES
Quem é Ícaro?
Se segurança corporativa fosse um esporte olímpico, Ícaro Fontan já teria subido ao pódio com medalha no peito, crachá no pescoço e um plano de contingência na mão. Com mais de 20 anos de experiência, ele já passou por empresas que fazem o PIB suar frio: Shell, Petrobras, Technip e até a ONU — sim, aquela mesma que aparece quando o mundo está prestes a acabar nos filmes.
Especialista em proteção patrimonial, gestão de riscos, segurança de expatriados e integração de tecnologias, Ícaro também já foi professor de MBA. Ou seja, além de proteger, ele ensina os outros a proteger — com direito a PowerPoint, planilha e café forte. Com vivência sólida em ambientes de alta complexidade no Brasil e no exterior, ele é o tipo de profissional que sabe lidar com crises, gambás e executivos ansiosos — às vezes, tudo ao mesmo tempo.
Agora, vamos ao que interessa: uma conversa franca, divertida e cheia de bastidores com esse mestre da segurança que não pode dizer onde trabalha, mas pode contar tudo o que aprendeu sem citar nomes. Tipo um espião corporativo do bem.
FM Connection: Ícaro, quando a gente fala em segurança corporativa, o que exatamente está debaixo desse guarda-chuva? Só falta chover?
Ícaro Silva: A Segurança Corporativa é uma disciplina ampla, estratégica e, por que não dizer, multifacetada. Debaixo desse guarda-chuva cabe de tudo: segurança patrimonial, da informação, prevenção a perdas, segurança cibernética, inteligência corporativa, proteção de executivos… e o que mais o risco permitir. Tudo depende do tipo de negócio. O que mudou nos últimos anos é que deixamos de ser “o vigia da portaria” e passamos a integrar tecnologia, dados e outras áreas da empresa. Hoje, somos mais proativos na mitigação de riscos — internos e externos. E, sim, ainda chove.
FM: E como é o casamento entre segurança corporativa e a turma de Facilities? É parceria ou DR constante?
IS: É uma relação direta e essencial. Segurança e Facilities dividem o mesmo palco — o ambiente físico — e muitas vezes atuam em sincronia. Um bom controle de acesso, por exemplo, depende tanto da tecnologia (geralmente sob a batuta da segurança) quanto da infraestrutura e das rotinas operacionais (gerenciadas por Facilities). Quando os dois se entendem, tudo flui. Quando não… bem, aí temos reuniões longas e olhares atravessados.
FM: E no Brasil, como anda a segurança corporativa? Estamos mais para “Missão Impossível” ou “Chaves”?
IS: Tem uma frase que circula nas redes sociais: “O Brasil não é para amadores”. E, olha, poucas coisas combinam tanto com segurança corporativa quanto essa frase. O país é desafiador: altos índices de criminalidade, desigualdade social, ameaças que vão de roubos a ataques cibernéticos dignos de filme. Isso exige das empresas uma postura mais robusta e estratégica. Mas vejo avanços: mais investimento em tecnologia, mais consciência da alta gestão e mais profissionais qualificados. Ainda há muito a amadurecer, especialmente nas empresas de médio porte, mas estamos no caminho.
FM: E o que as empresas ainda fingem que não existe — até que o problema exploda no colo?
IS: Infelizmente, ainda há uma subvalorização de temas importantes. Um exemplo clássico é a gestão de riscos internos — fraudes cometidas por colaboradores ou fornecedores. Muitas empresas focam no “inimigo externo”, mas se esquecem de olhar para dentro. Quando percebem, o rombo já está feito. Outro ponto crítico é a segurança da informação. Vazamento de dados ou ataque cibernético pode causar um estrago enorme — financeiro e reputacional. E, claro, tem a falta de planos de contingência e continuidade de negócios. Quando a crise chega, falta preparo. E aí, meu amigo, não tem antivírus que salve.
FM: Conta pra gente um caso cabeludo que você teve que resolver. Daqueles que exigem paciência, investigação e talvez um pouco de terapia depois.
IS: Teve um caso emblemático num centro de distribuição. Pequenos furtos estavam acontecendo com frequência. Nada muito grande, mas constante. A princípio, parecia algo pontual, mas os números não batiam. Fizemos uma investigação minuciosa: análise de imagens, cruzamento de dados de acesso, entrevistas discretas… e descobrimos um esquema coordenado entre três colaboradores de turnos diferentes. Eles tinham um sistema de sinalização dentro do galpão e agiam sempre fora do radar da supervisão. Foi um trabalho que exigiu tempo, paciência e uma abordagem integrada de segurança física e inteligência. E, sim, deu vontade de escrever um livro depois.
FM: E agora, para fechar com chave de ouro: tem alguma “pérola” daquelas que viram lenda no cafezinho?
IS: Ah, essa é boa. Tinha um alarme que disparava todo dia às 3h da manhã numa unidade industrial. Já trocamos sensor, revisamos sistema, suspeitamos até de sabotagem. No fim, descobrimos que um gambá tinha feito um ninho perto do sensor e saía para passear no mesmo horário. Tivemos que chamar biólogos para resolver. Virou piada interna por meses. Todo mundo dizendo que o gambá passou a perna no gerente de segurança. E o gerente? Era eu. Mas, por favor, não espalha.



