Sustentabilidade e IA

Wagner Oliveira, engenheiro ambiental e diretor da Unidade Operação Sustentável do CTE (Centro de Tecnologia de Edificações), explica como a inteligência artificial se transformou em peça-chave para monitorar eficiência e comprovar resultados em edifícios com certificação ambiental.

Wagner Oliveira
  1. Como as certificações LEED dependem da tecnologia para obter seus parâmetros?

O LEED define critérios ambientais e de eficiência, mas depende de sensores, automação predial, softwares de modelagem energética e plataformas digitais para coletar, analisar e comprovar dados de consumo de energia, uso de água, qualidade do ar e gestão de resíduos. Além disso, o LEED possui uma série de critérios — especialmente de desempenho energético, hídrico e de conforto e bem-estar — que são diretamente relacionados com a tecnologia. O sistema adota padrões da ASHRAE para determinar eficiência, elevando cada vez mais seus níveis de exigência operacional. Para alcançar esses níveis, a tecnologia é fundamental, envolvendo não apenas sistemas de ar-condicionado, mas também fachadas, vidros, isolamento térmico e acústico, automação predial, IoT e inteligência artificial.

Podemos separar em camadas: a tecnologia física, como sistemas mais eficientes de climatização, fachadas e isolamento; e a camada lógica, que aprimora os sistemas de automação com lógicas modernas, indicadores de desempenho, análises preditivas e acionamentos conforme a necessidade real do edifício. Essa combinação faz com que os prédios se tornem cada vez mais eficientes.

  1. Como a tecnologia está inserida dentro dos padrões LEED?

O LEED não exige marcas específicas, mas estimula a adoção de soluções digitais como iluminação inteligente, climatização automatizada, commissioning contínuo com softwares e plataformas que centralizam dados ambientais. Além disso, isso ocorre também através da aplicação de normas cada vez mais eficientes e restritivas em termos de desempenho. Quanto mais rígidos os requisitos de performance, mais a tecnologia precisa ser incorporada. Essa inserção é direta, tanto em créditos que exigem medição individualizada e controles automatizados, quanto no acompanhamento para garantir a performance não só de projeto, mas também de operação.

  1. Quais as relações entre sustentabilidade e tecnologia?

A sustentabilidade estabelece metas de desempenho, e a tecnologia fornece os instrumentos de monitoramento e otimização. Sem medições digitais, seria impossível comprovar reduções de consumo ou rastrear a gestão de resíduos exigida pelo LEED.

Podemos olhar por duas óticas: a sustentabilidade da tecnologia e o uso da tecnologia para sustentabilidade. A tecnologia por si só não garante sustentabilidade — é necessário que seja bem implementada e adequada às características de cada edifício. Por exemplo, uma lâmpada LED de baixa qualidade pode reduzir consumo no curto prazo, mas se exigir trocas frequentes não será sustentável. Assim, a relação está ligada ao impacto da produção da tecnologia, à sua durabilidade e à capacidade de realmente entregar os resultados esperados ao longo do tempo.

Uma tecnologia de boa qualidade, bem implementada, transforma o prédio em mais sustentável, reduzindo impactos ambientais, custos operacionais e aumentando conforto e bem-estar dos usuários. Para isso, é essencial também garantir manutenção e operação adequadas, evitando desperdício tecnológico — quando sistemas avançados não recebem aferições, ajustes ou treinamento adequado dos operadores e acabam funcionando de modo manual ou obsoleto em poucos anos. O verdadeiro ganho vem da combinação entre qualidade, implementação correta e manutenção contínua.

  1. Como é feita a refrigeração de servidores de computadores: em salas com temperaturas controladas?

Sim, tradicionalmente em salas climatizadas. Mas existem várias formas dependendo das características do edifício e da carga dos servidores. Como esses equipamentos precisam de atendimento 24 horas, o ideal é contar com sistemas redundantes para garantir confiabilidade — se um falhar, o outro assume. Em edifícios comerciais, costuma-se adotar sistemas dedicados, como splits ou VRF, que proporcionam maior eficiência e controle. Além disso, são aplicadas estratégias como separação de corredores frios e quentes, onde o ar frio é lançado nos corredores específicos e o ar quente é extraído, reduzindo a carga térmica de resfriamento e aumentando o desempenho energético.

Já em data centers de grande porte, as soluções incluem refrigeração líquida, sistemas de ar cada vez mais sofisticados, tecnologias que reduzem o uso de água e energia, e até conceitos de data centers submersos ou semi-submersos, que aproveitam a temperatura de corpos hídricos (como mares ou lagos) para reduzir a necessidade de refrigeração artificial. Em todos os casos, surgem tecnologias mais eficientes, como o free cooling (uso de ar externo) e o uso de IA para controle dinâmico, permitindo um crescimento sustentável da infraestrutura de TI.

  1. Usa-se tecnologia para economia de energia em elevadores inteligentes?

Sim. Os elevadores inteligentes aplicam regeneração de energia, agrupamento de chamadas, standby em períodos de baixo uso e integração digital com controle de acesso, reduzindo consumo. Nos nossos estudos, os elevadores representam entre 7% e 10% do consumo de energia de um edifício. As tecnologias atuais incluem regeneração (semelhante a carros híbridos), sistemas de antecipação e agrupamento de chamadas e modos de stand-by mais eficientes. Porém, mesmo com essas soluções, eles continuam sendo equipamentos de alto consumo, o que exige ajustes finos e acompanhamento junto aos fornecedores.

Em análises recentes, identificamos que alguns elevadores em stand-by ainda consumiam cerca de 2% do consumo total do edifício, evidenciando a necessidade de configurações mais eficientes. Além disso, os sistemas de agrupamento e antecipação de chamadas muitas vezes estão desconfigurados ou mal utilizados, gerando consumo desnecessário. Assim, além da tecnologia embarcada, é essencial promover educação dos usuários e treinamento dos operadores, garantindo que os recursos sejam usados corretamente e a inteligência do sistema se traduza em redução real de consumo.

  1. A tecnologia é usada na verificação de uso de água no prédio?

Sim. Sensores e softwares monitoram padrões de consumo, identificam vazamentos e automatizam irrigação com base em dados de umidade. Alguns sistemas até usam IA para prever falhas em bombas e válvulas.

Além da verificação, a tecnologia é cada vez mais fundamental para reduzir o uso de água nos edifícios. Isso começa pela adoção de equipamentos sanitários mais eficientes, como vasos e torneiras de baixo consumo, e chuveiros com aeração que mantêm conforto reduzindo a vazão. No Brasil, a legislação ainda é atrasada, permitindo equipamentos que consomem mais do que o necessário. Já existem tecnologias que reduzem para 1,6 a 3 litros por acionamento, com melhor desempenho e menor desperdício.

Outra frente é a pressurização inteligente de sistemas de distribuição de água, ajustando a pressão de acordo com o uso, em vez de depender apenas da gravidade. O monitoramento em tempo real, muitas vezes via IoT e protocolos como Lora, Sigfox ou comunicação celular, permite identificar vazamentos e distorções de consumo, acionando alarmes ou até cortando automaticamente o fornecimento de água da área afetada. Isso reduz perdas e acelera a resposta da manutenção.

Também é possível aproveitar novas fontes de água não potável dentro do edifício, como reuso de águas cinzas, tratamento local de efluentes ou aproveitamento da água de condensação do ar-condicionado. Esse recurso pode ser usado em sistemas de resfriamento, irrigação ou até para reduzir a carga energética, pois já chega fria. Para que esses sistemas sejam sustentáveis, é essencial garantir manutenção, qualidade da água e monitoramento constante dos resultados.

Infelizmente, no Brasil a água ainda é barata, o que reduz o incentivo econômico para adotar essas tecnologias, mas elas são cruciais para sustentabilidade a longo prazo.

  1. Como a tecnologia apoia a reciclagem e o descarte de lixo?

A tecnologia permite, em primeiro lugar, reduzir a necessidade de geração de resíduos por meio de novos materiais e processos digitais. Um exemplo claro é a substituição de documentos impressos por assinaturas eletrônicas, reduzindo consumo de papel e descartes relacionados. Ou seja, a tecnologia atua antes mesmo do resíduo existir, minimizando extração de matéria-prima.

Quando o resíduo é inevitável, entram as soluções para gestão e monitoramento: sensores IoT em lixeiras e containers para otimizar coleta, câmeras inteligentes com IA que verificam se a separação foi feita corretamente e acompanhamento em tempo real do enchimento. Isso gera economia de recursos operacionais e melhora a qualidade da segregação.

Na etapa de reciclagem, a tecnologia apoia com separações mais sofisticadas por densidade e tipologia de material, automação de processos e redução de custos. Embora sistemas de coleta a vácuo tenham sido implementados em alguns lugares, eles ainda apresentam desafios por contaminarem resíduos e dificultarem a triagem.

Ainda assim, o desafio permanece: a sociedade gera cada vez mais resíduos sólidos e efluentes à medida que cresce o consumo. A tecnologia, portanto, é fundamental para otimizar o ciclo de vida, reduzir impactos e apoiar práticas alinhadas ao LEED, mas precisa ser combinada com políticas, conscientização e mudanças de hábito.

  1. De que forma a tecnologia é utilizada para medir e comprovar os parâmetros exigidos pelas certificações LEED?

Com sensores IoT, BMS integrados, modelagem energética digital e submeterização, que permitem evidenciar o desempenho exigido pelos créditos. Porém, é importante destacar que a comprovação dos parâmetros exigidos varia conforme o tipo de certificação. Para a certificação inicial, não é necessário comprovar a operação em tempo real. Já para a certificação de operação e manutenção, a verificação acontece por meio de indicadores baseados em dados reais: consumo de água, energia e ocupação.

Esses dados podem ser obtidos tanto de contas de energia e água quanto de sistemas de medição em tempo real, que detalham os padrões de consumo. A comprovação de performance não é apenas a tecnologia em si, mas sim a comparação entre o consumo real e os indicadores de referência estabelecidos. Por exemplo, no LEED for Existing Buildings (EBOM), existem níveis mínimos de performance comprovados com indicadores como consumo por metro quadrado ou consumo per capita, que refletem a eficiência do edifício em operação.

  1. Como os padrões LEED incorporam soluções tecnológicas para promover práticas sustentáveis em edifícios corporativos?

Por meio de iluminação inteligente, climatização avançada com automação, commissioning contínuo via softwares e plataformas digitais de gestão. Essa incorporação acontece também pela aplicação de padrões de eficiência energética e parâmetros mínimos de desempenho previstos não só pelo LEED, mas também por normas complementares como ASHRAE e referências do GRESB. Quanto mais restritivos esses parâmetros, maior a necessidade de soluções tecnológicas.

Um ponto fundamental é o processo de comissionamento formal, que assegura que os sistemas estejam instalados e funcionando conforme o previsto no projeto e na construção. É esse processo que garante que as tecnologias adotadas realmente entreguem o desempenho esperado, transformando o edifício em uma operação mais eficiente e alinhada às práticas sustentáveis.

  1. A refrigeração de servidores de computadores costuma demandar alto consumo energético. Quais soluções mais eficientes têm sido aplicadas para reduzir esse impacto ambiental?

(Resposta geral já apresentada acima, seguem abaixo algumas tecnologias)

  • Hot aisle / cold aisle containment — separar fisicamente ar frio (entrada) e ar quente (saída), impedindo mistura e forçando o fluxo ideal. Isso pode gerar economias de 10% a 35% no consumo de energia para resfriamento.
  • Refrigeração líquida / resfriamento direto / imersão — transportar calor por líquido até os componentes geradores, superando limitações do ar. Em cenários bem aplicados, há estimativas de até 40% de redução nos custos elétricos de resfriamento.
  • Free cooling / uso de ar externo — aproveitar ar ambiente quando a temperatura permitir, reduzindo a ativação dos sistemas mecânicos de climatização.
  • IA / automação adaptativa / controle preditivo — modelos de aprendizado que ajustam ventiladores, bombas, fluxo de ar e parâmetros de resfriamento em tempo real. O DeepMind, por exemplo, chegou a reduzir em cerca de 40% o consumo de energia usado para refrigeração em centros de dados.

 

 

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