Aprendendo com a natureza

PING-PONG

Os 27 anos de liderança corporativa e gestão de pessoas, com experiência internacional, trouxeram para a administradora Milena Martins um olhar holístico sobre o trabalho, as relações humanas e a vida no planeta. Não por acaso ela vem acrescentando em seu repertório aprendizado e prática de negócios baseados na natureza, apoiando a biodiversidade na formação de talentos da cadeia produtiva.

* FM Connection: Em matéria de “Gestão de conflitos em FM”, quais são as barreiras corporativas enfrentadas na busca de práticas sustentáveis?

* Milena Martins: A primeira barreira é o mindset dominante de que o ser humano é “destacado” na natureza, superior e especial. Claro que podemos fazer bom uso de muitos recursos naturais, mas, quando a lógica de retorno financeiro ultrapassa a lógica da vida, a insustentabilidade vem junto. Outro incômodo que vira barreira é “como medir?”. Em empresas tão carregadas de processos, quase não há abertura de espaço mental para a experimentação sem métrica. É necessário abrir espaço para o qualitativo com loops de feedback, além do quantitativo. Daí, imagino mudanças nas corporações, em que nem tudo parta de decisão estratégica top down, posto que as camadas de gerência e/ou de supervisão média, assim como a base operacional, são as que melhor conhecem os negócios na prática. E certamente esses times, estimulados com autonomia, têm muito a sugerir para mudanças de hábito sustentáveis como, por exemplo, consumo de plástico de uso único, redução de resíduos, eficiência na compra de material e uso racional de água.

* FM: O que os líderes empresariais costumam enxergar como retorno de decisões que prezam o ambiente? Persiste a dualidade custo x atitudes sustentáveis?

* MM: Sim, bastante, na medida em que se olha retorno de investimento no curto prazo para algo que exigiria longo prazo. Com relação à gestão, o próprio avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS, da ONU) fez com que todos assumissem o compromisso de divulgar resultados anuais, como é cobrado pelo mercado, por acionistas e investidores. O problema é que isso pode não ser o bastante. Nas corporações, deparo-me com executivos “espontaneamente” apontando seus resultados com base nos ODS. E, quando pergunto sobre a relação entre esses números e os impactos na vida dos trabalhadores e suas famílias, há uma pausa para pensar. Cerca de 70% desses executivos sequer pensaram no perfil familiar de seus empregados, no que significa salário digno no Brasil, na fome nas comunidades do entorno ou no IDH dos lugares por onde passa sua logística. Não se pode continuar segregando o social do ambiental e ignorando interdependências com o lado econômico, até para a própria sustentação dos negócios. A nossa visão de mundo impacta como decidimos, como medimos, o que medimos e o que buscamos.

* FM: Quais estratégias de negócios seriam mais recomendáveis no diálogo com a natureza?

* MM: Humildade, coragem e curiosidade para aprender a dinâmica da própria natureza. Negócios geram lucros e esse é o sentido da existência para acionistas. Nada de errado nisso. A pergunta é “qual a base de custo para esse lucro?”. Será que estamos percebendo todo o impacto no ambiente? Estratégias de organizações ambidestras têm se mostrado um bom caminho, cuja geração de caixa financia o campo experimental de possibilidades baseadas na Natureza. Outro caminho é incorporar a linguagem dos biomas brasileiros no desenho de uma estratégia de negócios. E, quando digo “humildade”, penso na necessidade de estimular pequenos e médios produtores a buscarem soluções baseadas na natureza. A produção em escala, modelo que prevalece nas grandes corporações, pode não ser mais a fórmula que dialoga com a biodiversidade e a pluralidade regionais.

* FM: Você está estudando biomimética. O que essa formação vem trazer? Em que medida pode ajudar na mediação dos conflitos corporativos?

* MM: Biomimética é a ciência que estuda os ciclos de vida na natureza como inspiração para soluções entre os seres humanos. E ela me atraiu nas duas semanas que passei na Baía de San Ignacio, no México, observando o comportamento de baleias cinzentas. Junto de pescadores, biólogos e jornalistas, não só aprendi sobre aqueles seres incríveis, como conheci uma baita história local de transformação cultural. Hoje, aquele ecossistema é bastante equilibrado ambiental, econômica e socialmente por causa de um processo de reconciliação entre o ser humano e as baleias. E, tendo eu trabalhado tantos anos com mudanças de mindset em grandes corporações, essa história reforçou minha aposta na natureza e no ser humano como um dos elementos desse grande sistema. O desafio é despertar interesse em uma nova geração de líderes para solucionar os dilemas da humanidade com base nos princípios da vida, para além do carbono neutro.

* FM: E, nesse processo de sensibilização, por onde começar?

* MM: Por algumas perguntas básicas: o quanto você conhece sobre o lixo que sua família ou você individualmente produz? Ele é uma “invenção” humana e não desaparece quando o colocamos na lixeira. Lembrando que na natureza não há lixo, já que o processo regenerativo dá conta de tudo. Então, um primeiro passo seria separar o lixo compostável, reciclável, o que vai para aterro sanitário e por aí vai. Só de fazer isso em casa, já se cria outro tipo de mindset. E, nas empresas e escritórios, a sugestão é começar a fazer eventos “Lixo Zero”, meta totalmente possível. Passível de certificação, essa ação contribui tremendamente para redução dos aterros, podendo ainda gerar renda e reeducar os usuários que agirão como multiplicadores. Trata-se de uma longa jornada, mas cheia de prazer por trabalhar uma contribuição concreta na agenda do planeta.

Milena Martins

Frase: “Junto de pescadores, biólogos e jornalistas, não só aprendi sobre aqueles seres incríveis, como conheci uma baita história local de transformação cultural. Hoje, aquele ecossistema é bastante equilibrado ambiental, econômica e socialmente por causa de um processo de reconciliação entre o ser humano e as baleias.”

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