DUAS PALAVRAS
Ela iniciou sua carreira num mercado historicamente dominado por homens. Daí seus primeiros obstáculos terem sido transformar desafios de ordem de gênero em oportunidades de ordem profissional. E suas estratégias deram tão certo que, 17 anos depois, a engenheira ambiental, pós-graduada em Gestão Empresarial, Fernanda Favoreto, ocupa o cargo de Diretora América do Sul de Real Estate da Volvo Indústria Automotiva. Em toda sua jornada, nos “buracos” que encontrou pelo caminho, o melhor desvio se deu pela via da comunicação. Como ela mesma diz, “conflito bem mediado é aquele à base de muita conversa, numa comunicação que seja a mais transparente possível”.
* FM Connection: Quais tipos de imbróglios você já enfrentou pelas empresas por onde passou?
* Fernanda Favoreto: Acredito que conflitos sempre vão ocorrer em Real Estate, porque estamos lidando com uma área de suporte, que tem questões técnicas e emocionais envolvidas. E, ao longo da minha carreira, enfrentei alguns dilemas relacionados às diferenças de idade e de gênero, devido a expectativas, necessidades e maneiras de ver tão diferentes quanto. Foi quando precisei reconhecer o meu lugar ao sol e valorizar as contribuições individuais para fortalecer a cultura do respeito.
Outro ponto é o conflito de egos, porque a cultura de colaboração é muito bonita no papel, mas nada fácil de ser praticada. Por estarmos falando de uma área com forte impacto operacional, a interferência de colaboradores de outros setores é bastante recorrente, a ponto de acabarem surgindo, não raro, embates técnicos. Daí ser importante sempre argumentar com fatos e dados, porque uma pessoa sem “fatos e dados” é só uma pessoa com opinião. E haja embasamento técnico para conseguir evitar ou resolver certos tipos de atrito.
* FM: Há quatro anos, sua atuação tem sido no ramo automotivo. Existem conflitos específicos desse setor?
* FF: Há uma diferença grande entre indústrias de carro, de caminhão e de veículo de construção. Sobre a produção de carro, a estratégia muda muito com o tempo, porque ela depende bastante do mercado, da paixão que certo veículo desperta. Então, o conflito aí pode se instalar pela mudança tão rápida de direcionamento, já que precisamos acompanhar a volatilidade do gosto do consumidor. E, para quem trabalha com construção predial, isso é muito desafiador, porque o planejamento é feito mais a longo prazo, considerando que um edifício deprecia em 25 anos.
Então, com a mudança de rota no meio do caminho, começam a surgir conflitos advindos de desânimo da equipe, exigindo-nos muito jogo de cintura para gerenciar esses efeitos. Outro dilema tem a ver com questões de sustentabilidade, em que precisamos atender às expectativas do cliente, sem deixar de lado as metas sustentáveis da empresa nem o fator de custo. Logo, a solução aí é “botar a bola em jogo”, até que os objetivos comuns sejam alcançados.
* FM: Com 17 anos de experiência, quais são os conflitos mais recorrentes, contra os quais há que ter cuidado redobrado?
* FF: São os conflitos interpessoais, oriundos de divergências de opinião e de estilos de trabalho e de resistência a mudanças. No mercado onde atuo, não se fazia carro, há 10 anos, como se faz hoje, com modos e espaços de trabalho bem diferentes. Daí, além das adaptações de mindset, temos que mediar disputas relacionadas a orçamento, com vistas ao equilíbrio da alocação de recursos. Tudo isso ainda acrescido da necessidade de garantir conformidade às normas internas e externas da empresa.
E o grande “pulo do gato” é fomentar uma cultura de comunicação aberta, sincera, incentivando o diálogo construtivo e o trabalho colaborativo, onde todos consigam olhar na mesma direção. Para isso, precisa-se abrir mão um pouquinho de objetivos pessoais ou setoriais para chegar a um balanço do que for melhor para a empresa, por meio não apenas de um discurso, mas de um diálogo inclusivo de todas as áreas, pessoas e necessidades. Soluções que só aparecem, claro, à custa de muita maturidade profissional.
* FM: É mera utopia imaginar uma empresa onde não existam conflitos? Por quê?
* FF: Acredito ser utópico, sim, um ambiente de trabalho onde não existam conflitos, porque estes são intrínsecos à diversidade de pessoas, de opiniões e de bagagens técnica, emocional e corporativa. E é bastante importante, aliás, que tenhamos toda essa diversidade, pois olhares diferentes sobre o mesmo tema podem levar a uma gama maior de soluções. O negócio é saber tirar o melhor proveito, de modo a transformar crises em oportunidades de crescimento e de inovação.
E só com maturidade e foco voltado para os mesmos objetivos conseguimos gerenciar bem os conflitos. Não que vamos ser capazes de eliminá-los totalmente, mas, pelo menos, podemos diminuí-los. É quando eu volto àquele ponto da comunicação transparente, numa cultura organizacional que valorize o respeito, as nuances de pensamento, de olhares e de perspectivas para o desenvolvimento de um ambiente de trabalho mais dinâmico e produtivo. Enfim, tudo isso para dizer que acho que não existe ambiente sem conflitos. Porém, um ambiente com poucos confrontos, ah… isso é possível, sim!

Frase: “E, ao longo da minha carreira, enfrentei alguns dilemas relacionados às diferenças de idade e de gênero, devido a expectativas, necessidades e maneiras de ver tão diferentes quanto”. Fernanda Favoreto
