painel 6 | Storytelling through design and chance | Dia 07 AGO
Painel 6 transforma experiências em aprendizado coletivo e encerra e evento com uma lição sobre colaboração
A programação do terceiro e último dia do FM Connection no Florida Facilities Summit reservou um espaço diferente dos demais painéis do evento. Em vez de apresentações estruturadas e sequenciais, o Painel 6 foi conduzido como uma grande roda de conversa entre profissionais de facilities management.
Com o tema “Facility Managers: casos e acasos. Um fórum interativo para líderes de facilities compartilharem experiências, desafios e melhores práticas”, a proposta era abrir espaço para relatos espontâneos dos participantes. A mediação ficou a cargo de Ana Machado, que convidou o grupo a compartilhar situações marcantes, positivas ou negativas, capazes de transformar a forma de trabalhar. “Queria ver se a gente tem aqui uns três, quatro casos, três ou quatro pessoas que possam compartilhar alguma coisa que tenha acontecido, ou de muito positiva ou de muito negativa, e que tenha trazido um aprendizado”, propôs.
Ao longo da conversa, os relatos passaram por temas como infraestrutura corporativa, mapeamento de processos, escuta ativa, liderança feminina, equilíbrio entre vida profissional e pessoal e gestão de crises.
Um problema identificado pela observação
A primeira experiência compartilhada foi a de Maria Beatriz Salcedo, que relatou uma situação vivida nos escritórios da EY, em São Paulo.
Ao assumir a gestão da área, ela identificou um problema relacionado ao espaço destinado às refeições. Embora a empresa adotasse uma política consistente de trabalho remoto, cerca de 600 pessoas diferentes circulavam diariamente pelo escritório. No entanto, a estrutura disponível para as refeições era composta por apenas dois micro-ondas e 20 lugares para sentar.
A percepção inicial levou a uma investigação mais detalhada. Durante uma semana, uma colaboradora foi encarregada de contabilizar quantas pessoas utilizavam o espaço no horário do almoço. “O resultado foi de 130 pessoas por dia esquentando marmita. Falei: ‘Cara, que absurdo!’”, contou.
A proposta de criar uma cafeteria esbarrou em resistências internas. O argumento da direção era que o escritório estava localizado na região da Faria Lima, em um edifício de alto padrão, cercado por opções gastronômicas. Para Beatriz, a análise precisava considerar outro aspecto: a realidade financeira dos colaboradores. “Nosso vale é de R$ 35. Na Faria Lima você não come com R$ 35 de jeito nenhum.”
A solução veio a partir da construção de um estudo detalhado, com dados, registros fotográficos e análises de viabilidade econômica. A mudança na liderança da empresa também abriu espaço para uma nova discussão. Após meses de negociações, a proposta foi aprovada e a cafeteria terceirizada passou a operar no local. “O CEO bateu, bateu, mas a gente defendeu muito durante muito tempo, e a gente tem uma cafeteria operada por terceiro que é um sucesso absoluto”, relatou.
A iniciativa também garantiu uma contrapartida da empresa responsável pela operação, que passou a disponibilizar vales para serem distribuídos aos colaboradores em ações internas. Ao apresentar o caso, Beatriz destacou a importância da observação e da persistência. “Eu acho bem bacana essa história de não se conformar com o ‘não’”, finalizou.
Processos, escuta e transformação cultural
Na sequência, Fernando Carrasqueira levou a discussão para o campo dos processos organizacionais. Defensor do mapeamento de processos como ferramenta de gestão, ele relatou a experiência de trabalhar em uma empresa que não possuía nenhuma documentação formal das atividades. Segundo ele, o conhecimento estava concentrado nas pessoas, o que criava uma dependência excessiva dos profissionais. “Eu acredito muito na gestão de pessoas, mas acredito muito também que sem processos a companhia não vai para frente.”
Ao assumir a tarefa de mapear todas as atividades da organização, Fernando iniciou a construção do retrato dos processos existentes, a etapa conhecida como AS-IS. Posteriormente, o trabalho avançaria para o TO-BE, fase dedicada à revisão e ao aprimoramento dos fluxos. No entanto, durante as entrevistas com profissionais de diferentes níveis hierárquicos, ele percebeu que a atividade estava revelando questões que extrapolavam os procedimentos formais. “Você acabou sendo o psicólogo da pessoa, o terapeuta, onde você ouvia muitas dores dentro da empresa que não tinham nada a ver com o processo.”
O trabalho acabou se transformando em uma oportunidade para promover mudanças culturais em alguns setores da organização. Depois de um ano de atividades, o retorno recebido pelos colaboradores confirmou o impacto da iniciativa. “Essas pessoas agradeceram a mim e ao meu time porque nós fomos uma ferramenta para que essa cultura pudesse ser mudada”, relembrou.
O Professor Moacyr aproveitou o relato para estabelecer uma conexão com a experiência apresentada anteriormente por Maria Beatriz. Ele compartilhou o caso de uma instituição financeira que buscava aproximar clientes da empresa por meio da experiência oferecida em sua sede.
Apesar da estrutura existente, a estratégia não produzia os resultados esperados. Os clientes visitavam o local uma única vez e não retornavam. A solução foi reformular completamente a proposta, incluindo a contratação do restaurante Fasano para operar o serviço. O resultado foi imediato. “Além de resolver o problema que a estratégia não resolvia porque estava com o instrumento errado, gerou receita, agregou valor para a empresa. E isso é inteligência de Facilities.”
Histórias de vida, sonhos e uma lição coletiva
A roda de conversa também abriu espaço para relatos pessoais emocionantes. Edi Siena compartilhou a trajetória construída ao longo de duas décadas na mesma empresa. Ao lembrar o início da carreira, falou sobre as dificuldades financeiras e sobre o desafio de criar os filhos enquanto construía a própria trajetória profissional.
Ela contou que em 2025, ela criou um grupo dedicado ao acolhimento e ao fortalecimento das mulheres da organização. “Eu queria muito poder contar com vocês para contarem um pouquinho da história de vocês para outras mulheres do nosso grupo.” A mensagem foi acompanhada por um convite à valorização dos sonhos: “Nunca deixem ninguém roubar os seus sonhos.”
Em seguida, Léa Lobo apresentou uma reflexão sobre o excesso de dedicação ao trabalho. Ela relembrou um episódio envolvendo a filha, que sugeriu a produção e a venda de brigadeiros na escola para ajudá-la a trabalhar menos. “Que essa paixão tão grande que todos nós temos aqui pelo trabalho não faça vocês esquecerem dos familiares de vocês.”
A última história ficou por conta da própria Ana Machado. Ela relatou um episódio ocorrido enquanto retornava da Argentina. Durante uma ligação telefônica, foi informada de que uma cabeça humana havia sido encontrada próxima ao enrocamento de uma fábrica da Shell, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Inicialmente, ela acreditou que se tratava de uma brincadeira.
No entanto, a situação exigiu uma resposta imediata. Como a polícia informou que não havia efetivo disponível e a área de segurança da empresa alertou para os riscos jurídicos caso o material fosse levado pela maré até a estrutura da companhia, a solução encontrada foi solicitar o apoio de um funcionário terceirizado. Durante horas, a pessoa permaneceu no local utilizando uma vara para impedir que a correnteza levasse a cabeça até o enrocamento.
Ao final do relato, Ana resumiu o principal aprendizado: “O aprendizado é estar preparado para tudo. Tanto para as coisas boas quanto para as mais absurdas.”
Música e cultura brasileira em Orlando
A sessão foi encerrada com uma dinâmica musical que sintetizou o espírito da roda de conversa.
Ao som da música “Mas Que Nada”, de Sergio Mendes e Black Eyed Peas. A escolha da música se deu pelo fato dela ser uma das canções brasileiras mais conhecidas no exterior, particularmente nos Estados Unidos, onde foi gravada pelo pianista e compositor brasileiro Sérgio Mendes. Em 2006, a música foi remixada e regravada pelo grupo Black Eyed Peas com o próprio Sérgio Mendes, misturando o ritmo brasileiro ao hip hop norte-americano.
Os participantes foram divididos em três grupos. Cada equipe ficou responsável por uma interação diferente com a música, utilizando palmas, sons e movimentos corporais. O resultado da atividade mostrou, na prática, a mensagem construída ao longo do painel: quando cada pessoa compreende o seu papel e contribui com a sua parte, o resultado coletivo se fortalece, mesmo que nem todos tenham a visão completa do conjunto.
Entre histórias profissionais, experiências pessoais e situações inesperadas, o Painel 6 consolidou um dos princípios mais presentes na atividade de Facilities Management: a troca entre os pares continua sendo uma das ferramentas mais importantes para o desenvolvimento da profissão.
