Transformando sustentabilidade em prática

Sustentabilidade

A sustentabilidade deixou de ser uma agenda restrita ao projeto e à construção de edifícios para ocupar espaço permanente na gestão das operações. Em Facilities Management (FM), essa transformação amplia o papel dos gestores, fortalece a importância dos dados de desempenho e aproxima os objetivos ambientais das estratégias de negócio. Brasil e Estados Unidos avançam por caminhos distintos, mas convergentes, em direção a edifícios mais eficientes, resilientes e preparados para responder às demandas climáticas e corporativas.

O desempenho passa a orientar a gestão

Segundo Felipe Faria, CEO do Green Building Council Brasil, a integração entre projeto, construção e operação sempre fez parte da filosofia dos edifícios sustentáveis. Para ele, o que mudou foi a intensidade com que o mercado passou a reconhecer a importância da fase operacional.

“A forma que o green building aborda a sustentabilidade, as fases de construção e a gestão cotidiana das operações sempre estiveram conectadas. O princípio principal do green building é a aplicação de uma visão holística e a intersecção dos aspectos de projeto, obra e operação.”

Ele explica que o crescimento das certificações levou o mercado a acompanhar indicadores como eficiência energética, consumo de água, conforto térmico, qualidade do ar e desempenho operacional. Paralelamente, sensores, medidores e automação passaram a integrar a rotina de muitos empreendimentos.

“O desempenho depende do profissionalismo e expertise da gestão operacional. Inclusive a certificação LEED O+M está bem ancorada na participação dos profissionais de FM. Vejo a oportunidade para estes profissionais evidenciarem o quanto podem ser essenciais para o diferencial competitivo dos ativos e para a produtividade das empresas.”

Essa valorização da operação também aparece na evolução do LEED v5. Para Kat Wagenschutz, Senior Director, Existing Buildings do U.S. Green Building Council (USGBC), a certificação amplia o conceito de edifício de alto desempenho ao concentrar esforços em três pilares: descarbonização, saúde humana e ecológica e resiliência.

“Pela primeira vez na história do LEED, o LEED v5 O+M para edifícios existentes integra medidas de resiliência em todo o sistema de certificação. Desde a exigência de uma avaliação de resiliência até o reconhecimento de projetos que desenvolvem planos de resposta para os principais riscos, a resiliência passa a fazer parte de toda a metodologia.”

Ela destaca ainda que metade da pontuação do LEED v5 está relacionada à descarbonização dos edifícios existentes, oferecendo às equipes orientações práticas para reduzir emissões ao longo do tempo.

Brasil e Estados Unidos compartilham desafios

Embora existam diferenças entre os mercados, ambos convivem com a necessidade de adaptar edifícios às mudanças climáticas e elevar seu desempenho operacional.

Felipe Faria observa que o Brasil possui uma vantagem importante com sua matriz energética relativamente limpa, fator que favorece a redução das emissões operacionais. No entanto, ele considera que o país precisa ampliar o debate sobre resiliência.

“Independentemente do carbono, a eficiência energética continuará sendo uma das prioridades porque faz total sentido financeiro. Mas a América Latina precisa se concentrar na resiliência das edificações, principalmente em favor dos mais vulneráveis e das edificações críticas.”

Na avaliação de Kat Wagenschutz, os impactos dos eventos climáticos extremos reforçam essa prioridade em diferentes regiões do mundo.

“Nos Estados Unidos, a sustentabilidade está fortemente orientada para resultados operacionais, como carbono, resiliência e saúde dos ocupantes. Ao construir e operar edifícios sustentáveis, eles se tornam mais preparados para eventos extremos, reduzem riscos e apoiam a continuidade dos negócios.”

Ela destaca que o caráter global do LEED favorece a troca de experiências entre países.

“Projetos norte-americanos podem aprender com estratégias brasileiras adaptadas ao clima, enquanto o Brasil pode aproveitar o avanço dos Estados Unidos em dados de desempenho, medições contínuas e gestão operacional em escala de portfólio.”

Sustentabilidade precisa falar a linguagem do negócio

A consolidação da agenda ESG também amplia a necessidade de demonstrar resultados concretos para investidores e lideranças corporativas.

Para Felipe Faria, evidências já existem, mas a comunicação ainda representa um desafio.

“Não faltam exemplos sobre reduções de despesas operacionais, melhora de produtividade, valorização dos ativos, aumento da velocidade de ocupação e retenção. O que falta é a adequação da linguagem.”

Ele defende que argumentos ambientais, sociais e econômicos devem ser adaptados aos diferentes públicos para ampliar a adoção de soluções sustentáveis.

Na mesma direção, Kat Wagenschutz ressalta que certificações independentes desempenham papel importante no combate ao greenwashing.

“A certificação de terceira parte fornece a integridade necessária para demonstrar que equipes entregam aquilo que planejaram. Ela cria responsabilidade sobre metas específicas e oferece aos proprietários e operadores uma comprovação de que o edifício está funcionando de forma otimizada.”

A sustentabilidade se consolida na rotina

Se certificações e indicadores estabelecem diretrizes, a implementação depende das decisões tomadas diariamente pelos profissionais responsáveis pelas operações.

Marúsia Feitosa, Real Estate & Workplace Solutions Manager da Lenovo Brasil, afirma que a sustentabilidade pode avançar em qualquer organização, independentemente do orçamento disponível.

“Existem iniciativas para todos os budgets e níveis de maturidade. Quanto mais observamos e entendemos como a operação funciona e como as pessoas se comportam em nossos espaços, mais podemos contribuir com ações que somarão positivamente aos compromissos de sustentabilidade da organização.”

Segundo ela, empresas globais estabelecem metas comuns, mas cabe às equipes locais adaptar os planos às características de cada mercado, envolvendo lideranças, fornecedores e parceiros estratégicos.

“Também considero fundamental manter uma comunicação objetiva e transparente com a alta liderança local para acordar as ações necessárias. Fornecedores e prestadores de serviços também devem ser desafiados a contribuir com ideias e soluções que caibam no orçamento e nos aproximem das metas.”

Para organizações de menor porte, ela destaca que pequenas iniciativas podem gerar resultados consistentes.

“Sustentabilidade é uma questão de responsabilidade e sobrevivência. Campanhas educativas para reduzir o consumo de energia e água, incentivo à reciclagem, instalação de arejadores, redução de desperdícios nas impressões, uso de utensílios reutilizáveis e limpeza a seco de carpetes são alguns exemplos. A lista de possibilidades é extensa. Basta estarmos atentos e comprometidos com a sustentabilidade do negócio e da vida em nosso planeta. A sustentabilidade não está apenas nos grandes projetos, mas também nas escolhas que fazemos todos os dias.”

Ao reunir a visão institucional, a evolução das certificações internacionais e a experiência prática da operação corporativa, o debate mostra que a sustentabilidade em Facilities Management depende cada vez menos de grandes intervenções e cada vez mais da capacidade de transformar estratégia em desempenho cotidiano.

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe!

Artigos