painel 3 | IAQ – Indoor Air Quality | Dia 06 AGO
A qualidade do ar interno no centro da gestão de facilities
A qualidade do ar interno deixou de ser um tema restrito aos sistemas de climatização e passou a ocupar um espaço estratégico na gestão dos edifícios. Essa foi a principal mensagem do Painel 3. Com o tema “Qualidade do Ar Interno: capacitando gestores de facilities para proteger um direito fundamental”, o painel reuniu Rodolfo Perez, vice-presidente do International WELL Building Institute, em Nova York; Paulo Jubilut, CEO da MilliCare Brasil; Leonardo Cozac, CEO da Conforlab; e Marúsia Feitosa, gerente sênior de Real Estate & Workplace Solutions da Lenovo.
Ao longo da discussão, os palestrantes defenderam uma abordagem multidisciplinar para a gestão da qualidade do ar, apresentaram referências normativas e compartilharam experiências relacionadas ao monitoramento, à certificação e à implementação de programas de melhoria contínua.
O edifício como agente de saúde
Ao abrir o painel, Rodolfo Perez propôs uma reflexão sobre a função dos edifícios. Segundo ele, a discussão ganhou força após a pandemia, quando os riscos associados à transmissão de agentes pelo ar passaram a ocupar o centro das preocupações. “Estamos reconsiderando o espaço como um local que pode realmente nutrir a sua saúde. Para que servem os edifícios, se não para as pessoas?”, questionou.
Rodolfo destacou que os ocupantes podem escolher o que comem e o que bebem, mas não conseguem escolher o ar que respiram em ambientes fechados. Por isso, a qualidade do ar deve ser tratada como um componente essencial dos edifícios saudáveis.
Ele apresentou os princípios da certificação WELL e explicou que diferentes fatores influenciam o ambiente interno, desde decisões de projeto até aspectos relacionados às operações e ao comportamento dos usuários. “Podemos considerar um edifício mais saudável sem um ar mais saudável? Provavelmente não”, questionou.
Entre os elementos apontados por ele estão o gerenciamento da umidade, a escolha dos materiais, os produtos de limpeza, a ventilação, o tratamento do ar e o monitoramento contínuo. Rodolfo também lembrou que os sistemas de certificação têm contribuído para transformar práticas voluntárias em referências adotadas pelo mercado: “O que começa como voluntário, com o tempo vira norma, e então precisamos buscar novas fronteiras de liderança.”
A gestão integrada da qualidade do ar
Na sequência, Paulo Jubilut abordou a relação entre a manutenção de carpetes e a qualidade do ar interno. O CEO falou sobre o papel dos gestores de facilities na adoção de novas práticas e tecnologias. “Quem faz as coisas acontecerem de verdade são vocês, o time de Facilities”, destacou.
Paulo explicou que estudos permitiram comprovar cientificamente a contribuição dos carpetes para a retenção de partículas, desde que a manutenção seja realizada de forma adequada. “O carpete é um produto excelente; o problema é se você não limpa. Se você limpa, ele se torna um aliado para ajudar na qualidade do ar interno”, atestou.
A apresentação também mostrou a necessidade de transformar dados em ações. Segundo Paulo, a utilização de sensores só produz resultados quando as informações geradas são incorporadas aos processos de gestão. “Os sensores apenas geram dados. Se a equipe de Facilities não pegar essa informação e realizar as mudanças necessárias, os sensores e a medição viram apenas despesa, e não investimento”, ressaltou.
Leonardo Cozac aprofundou a discussão ao defender a criação de programas estruturados de gestão da qualidade do ar interno. “Por muitos anos, a gestão da qualidade do ar interno esteve fortemente associada apenas à manutenção do sistema de climatização. Mas hoje sabemos que essa abordagem isolada não é mais suficiente”, disse.
O especialista explicou que a presença de contaminantes está relacionada a múltiplas fontes, como produtos químicos, mobiliário, reformas, atividades dos ocupantes e poluição externa. “A qualidade do ar interno precisa ser gerenciada como um programa predial completo, e não apenas como uma responsabilidade exclusiva do setor de ar-condicionado”, alertou.
Leonardo destacou a evolução das normas brasileiras e a importância da ABNT NBR 17037 e da ISO 16000-40 para ampliar o conceito de gestão da qualidade do ar. Ele também diferenciou avaliações pontuais de programas permanentes de gestão. “Um laudo laboratorial é importante, mas ele representa apenas uma fotografia da condição em um local e momento específicos.”
Para o executivo, a conformidade isolada não é suficiente. “A conformidade pontual é um instantâneo; a gestão é um processo contínuo”, lembrou.
Da correção de falhas à mudança de cultura
Encerrando o painel, Marúsia Feitosa apresentou o caso da Lenovo e descreveu a trajetória da empresa na construção de uma estratégia voltada para a qualidade do ar. “Eu não sou uma especialista técnica em qualidade do ar. Eu sou uma gestora de Facilities. Por isso, hoje quero compartilhar uma história real da Lenovo.”
Segundo Marúsia, o processo começou a partir da instalação de três sensores no escritório da empresa em São Paulo: “Não conseguimos saber se a qualidade do ar é boa ou não, porque não conseguimos ver”. A análise dos dados revelou concentrações elevadas de dióxido de carbono em áreas específicas e levou à contratação de uma avaliação técnica completa. A partir do diagnóstico, a empresa promoveu mudanças nos equipamentos, ampliou a renovação do ar e expandiu o monitoramento para 15 sensores distribuídos pelo escritório. “Tínhamos um problema técnico com os níveis de CO2. Foi assim que começamos”, contou.
A experiência evoluiu para a busca da certificação Brasindoor e para a adoção de práticas adicionais relacionadas à manutenção, ao treinamento das equipes e ao engajamento da liderança. Para Marúsia, o maior resultado da iniciativa foi a mudança de perspectiva em relação ao papel da gestão de facilities. “A certificação não é o destino final, ela é um marco.”
Ao concluir sua apresentação, a executiva reforçou que a qualidade do ar deve ser entendida como uma estratégia de cuidado com as pessoas. “Como gestores de Facilities, cuidar da qualidade do ar de interiores é algo grandioso e podemos ajudar as pessoas.”
Ao reunir diferentes perspectivas, o painel mostrou que a qualidade do ar interno não depende apenas de equipamentos ou da conformidade com normas. O tema exige governança, integração entre áreas, monitoramento permanente e participação ativa dos gestores responsáveis pela operação dos edifícios.
DEBATE
Perguntas da plateia ampliam debate sobre regulamentação e replicação de iniciativas
A participação do público acrescentou duas discussões ao painel: a expansão das iniciativas de qualidade do ar para outras unidades corporativas e os desafios para implementar políticas semelhantes no ambiente escolar brasileiro.
Ao responder a uma pergunta da plateia sobre a possibilidade de replicar as ações desenvolvidas pela Lenovo em outros países, Marúsia Feitosa explicou que esse movimento já faz parte da estratégia da companhia. Segundo ela, o departamento de Real Estate and Workplace Solutions trabalha com o conceito de integração entre as equipes globais para compartilhar experiências bem-sucedidas. “Temos algo que chamamos de One REWS. Toda vez que criamos boas iniciativas e somos bem-sucedidos, pedimos aos nossos colegas de outros países que as implementem também”, afirmou.
A segunda pergunta levou a discussão para o ambiente escolar e abordou a necessidade de regulamentações mais rigorosas para garantir padrões mínimos de qualidade do ar.
Leonardo Cozac destacou que a realidade das escolas brasileiras apresenta desafios específicos. Segundo ele, a ventilação natural, predominante em grande parte das instituições públicas, nem sempre é suficiente para garantir a qualidade do ar, especialmente em períodos de seca, aumento da poluição atmosférica ou temperaturas mais baixas. “O cenário é muito ruim”, resumiu.
O especialista lembrou que 97% das escolas públicas do estado de São Paulo não possuem sistemas de ar-condicionado. Quando esses equipamentos são instalados, a opção mais frequente costuma ser o sistema do tipo mini-split, que resfria o ambiente, mas não promove a renovação nem a filtragem do ar.
Leonardo ressaltou que iniciativas recentes do governo paulista apontam para a exigência de sistemas de renovação de ar em novas escolas, mas ponderou que a adaptação das edificações antigas ainda representa um desafio técnico e financeiro.
Ao complementar a resposta, Paulo Jubilut defendeu que a transformação do mercado também depende da pressão da sociedade. “Se os pais forem até as escolas e perguntarem: ‘Como está a qualidade do ar interno para o meu filho?’, a escola terá que responder”, disse. Para ele, a conscientização dos usuários pode atuar em paralelo às mudanças regulatórias e contribuir para acelerar a adoção de práticas voltadas à proteção da saúde nos ambientes educacionais.
