Arquitetura
A presença da natureza nos ambientes de trabalho vem assumindo uma nova função na arquitetura corporativa. Se durante décadas as plantas ocuparam um papel predominantemente decorativo, hoje passam a integrar estratégias voltadas à qualidade ambiental, ao bem-estar dos ocupantes e à eficiência operacional dos edifícios. Nesse contexto, a biofilia deixa de ser compreendida como um complemento estético e passa a fazer parte das decisões que envolvem projeto, operação e Facilities Management.
Para Dylan Wigman, CEO e fundador da Molen Planten, essa transformação acompanha a mudança na relação das pessoas com os escritórios após a consolidação do trabalho híbrido. Segundo ele, o ambiente corporativo passou a disputar a preferência dos colaboradores com o conforto oferecido pelo home office, tornando a experiência do usuário um fator central no planejamento dos espaços.
“O escritório deixou de ser apenas um local de obrigação e passou a competir diretamente com o conforto do lar. A integração de elementos naturais quebra a frieza corporativa tradicional e promove a conexão humana. Ao oferecer áreas verdes que proporcionam acolhimento e bem-estar, a empresa estimula o retorno espontâneo dos colaboradores e fortalece o senso de pertencimento”, afirma.
Nesse cenário, a vegetação passa a contribuir também para aspectos relacionados ao desempenho ambiental das edificações. Wigman explica que as plantas auxiliam na filtragem de poeira, na absorção de compostos orgânicos voláteis provenientes de móveis e tintas, no aumento da umidade em ambientes climatizados e na redução da propagação de ruídos.
Ele destaca, entretanto, que esses benefícios dependem de especificação técnica e manutenção contínua. “É preciso selecionar espécies adaptadas à sombra e ao ar-condicionado, controlar rigorosamente as regas e realizar a limpeza periódica das folhas sem o uso de pesticidas químicos. As plantas representam um aliado importante para a Qualidade do Ar Interior, mas não substituem os sistemas mecânicos de renovação do ar.”
Projeto integrado e visão de ciclo de vida
A incorporação da biofilia aos edifícios exige uma atuação coordenada entre diferentes disciplinas desde as etapas iniciais do projeto. Para o executivo, arquitetura, engenharia, design, Facilities Management e especialistas em saúde ocupacional precisam atuar de forma integrada para que estética, desempenho técnico e experiência dos usuários avancem na mesma direção.
“Quando essas áreas trabalham em conjunto desde o início, o escritório deixa de ser apenas um conjunto de estações de trabalho e passa a funcionar como um ecossistema voltado ao bem-estar e à eficiência.”
Essa abordagem também permite antecipar necessidades operacionais que costumam ser negligenciadas durante a concepção dos empreendimentos. Segundo Wigman, planejar previamente o acesso para manutenção da vegetação ou para limpeza dos sistemas de ventilação reduz intervenções futuras, evita custos adicionais e preserva a continuidade das operações ao longo da vida útil do edifício.
Na avaliação do executivo, a pandemia acelerou esse processo de transformação. As empresas brasileiras passaram a compreender que o retorno ao escritório depende da capacidade do ambiente de proporcionar saúde, pertencimento e experiências mais qualificadas. Esse movimento dialoga com o que já ocorre em mercados mais maduros.
“Nos Estados Unidos, a biofilia encontra respaldo em certificações de bem-estar como WELL e Fitwel. Enquanto o mercado americano utiliza o design natural como estratégia para atração de talentos, especialmente em regiões de clima mais severo, o Brasil se beneficia de sua vocação tropical para criar ambientes de convivência mais fluidos e integrados.”
Ciência orienta decisões e operação garante permanência
Para Wigman, a consolidação da arquitetura biofílica depende da convergência entre evidências científicas e gestão operacional. Ele cita estudos baseados na Teoria da Restauração da Atenção, que demonstram ganhos relacionados à recuperação do foco e da capacidade cognitiva após o contato visual com elementos naturais.
“As evidências também mostram redução dos níveis de cortisol e da pressão arterial, reforçando o impacto da biofilia sobre o estresse fisiológico dos colaboradores.”
Ao mesmo tempo, ele considera que ainda existem questões que demandam investigação científica, como a definição de parâmetros para estabelecer a quantidade ideal de vegetação nos ambientes corporativos, a permanência dos benefícios ao longo dos anos e a resposta de diferentes perfis profissionais, incluindo pessoas neurodivergentes, aos estímulos naturais.
No campo operacional, Wigman aponta a hidrocultura como uma alternativa para incorporar definitivamente a vegetação à infraestrutura predial. O sistema substitui a terra por água e argila expandida, reduzindo riscos de poeira, fungos, mofo, pragas e infiltrações, além de simplificar a manutenção por meio de vasos com medidores de nível de água, que diminuem a frequência das regas.
“Para que a biofilia permaneça durante toda a vida útil da edificação, a vegetação precisa ser tratada como um sistema vivo integrado ao projeto. Isso exige que arquitetura, engenharia e Facilities Management planejem conjuntamente iluminação, drenagem, fluxo do ar-condicionado e manutenção, garantindo um ambiente saudável, funcional e economicamente sustentável.”
