Brasil e Estados Unidos convergem na construção de instalações mais saudáveis

Prédio Saudável

A qualidade dos ambientes internos deixou de ser um tema restrito à engenharia predial para ocupar espaço nas estratégias de gestão das organizações. Questões como qualidade do ar, conforto térmico, iluminação, acústica e bem-estar passaram a integrar uma visão mais ampla sobre o desempenho das edificações e seus impactos na saúde das pessoas. Embora Brasil e Estados Unidos apresentem trajetórias diferentes na evolução desse conceito, especialistas apontam que ambos caminham para uma abordagem cada vez mais integrada.

Para Leonardo Cozac, presidente da ABRAVA e CEO da Conforlab, o conceito de edifício saudável evoluiu significativamente nos últimos anos. Segundo ele, limitar essa discussão à climatização ou à medição da qualidade do ar já não reflete a complexidade dos ambientes construídos.

“Um edifício verdadeiramente saudável é aquele que considera de forma sistêmica os aspectos relacionados à saúde, ao conforto e ao bem-estar dos ocupantes, abrangendo qualidade do ar, conforto térmico, acústico, iluminação, higiene e operação adequada da edificação.”

Cozac destaca que diversos fatores interferem na qualidade ambiental interna, como produtos químicos, processos de limpeza e manutenção, obras, materiais de acabamento, ocupação e até o comportamento dos usuários. Nesse contexto, ele aponta a importância de programas estruturados de gestão da qualidade do ar interior, capazes de identificar riscos, monitorar condições ambientais e promover melhorias contínuas.

Essa visão dialoga com a experiência internacional apresentada por Rodolfo Perez, vice-presidente do International WELL Building Institute (IWBI). Para ele, o conceito de bem-estar nos edifícios ganhou força ao longo deste século e foi acelerado pela pandemia de Covid-19.

“O que antes era considerado um diferencial, como boa qualidade do ar ou projetos que contemplassem a saúde mental, hoje passou a ser um requisito. Edifícios saudáveis tratam da experiência completa das pessoas nos ambientes onde passam a maior parte do tempo.”

Perez observa que o avanço de sensores, sistemas de monitoramento e tecnologias de informação ampliou a capacidade de medir variáveis ambientais e adaptar os edifícios às mudanças de ocupação dos espaços.

Gestão integrada e diferenças entre os mercados

A adoção de uma visão integrada também aparece como um ponto de convergência entre os especialistas. Perez ressalta que cada decisão tomada no projeto ou na operação de um edifício pode produzir efeitos sobre outros aspectos da edificação.

“Produtos de limpeza podem ser eficientes, mas liberar compostos que reduzem a qualidade do ar. Plantas e elementos de água podem fortalecer a conexão com o ambiente, mas exigem manutenção adequada para evitar pragas e umidade. Por isso, arquitetos, engenheiros e equipes de operação precisam trabalhar de forma integrada.”

Na avaliação de Cozac, o Brasil dispõe de um conjunto consistente de normas relacionadas à qualidade ambiental interna, mas o principal desafio está na implementação cotidiana dessas diretrizes.

“O Brasil possui um arcabouço regulatório relativamente robusto. O desafio está em transformar essas normas em prática efetiva. Mais do que atender à legislação, gestores precisam compreender que qualidade do ar significa menos afastamentos, maior produtividade, conforto e melhor experiência para os ocupantes.”

Ao comparar Brasil e Estados Unidos, Cozac observa que as diferenças climáticas influenciaram o desenvolvimento de culturas distintas de gestão dos ambientes internos. Enquanto a ventilação natural sempre teve maior protagonismo no Brasil, os sistemas de climatização mecânica predominam nos Estados Unidos, favorecendo uma cultura mais consolidada de monitoramento contínuo da qualidade do ar.

Perez acrescenta que, apesar das diferenças regionais, os princípios relacionados à saúde humana permanecem os mesmos. Segundo ele, o WELL Building Standard foi estruturado para combinar requisitos obrigatórios com estratégias flexíveis, permitindo sua adoção em diferentes países e realidades.

Saúde como estratégia de negócio

A relação entre ambientes saudáveis e resultados organizacionais também ganha espaço nas decisões corporativas. Cozac avalia que o mercado brasileiro vive um momento de transição, em que convivem empresas focadas apenas no cumprimento da legislação e organizações que já incorporam a qualidade ambiental como fator estratégico.

“A conscientização vem aumentando à medida que mais estudos demonstram os benefícios econômicos e humanos de ambientes internos mais saudáveis. Assim como aprendemos a valorizar a qualidade da água e dos alimentos, as pessoas começam a perceber que o ar que respiram também influencia diretamente sua saúde e sua qualidade de vida.”

Perez observa que essa transformação também ocorre em escala global. Segundo ele, investir em edifícios saudáveis representa um investimento nas pessoas e produz resultados perceptíveis tanto para os ocupantes quanto para as organizações.

“Há grandes oportunidades para utilizar o WELL como instrumento de reconhecimento internacional. Muitas empresas globais já exigem que os imóveis estejam aptos a atender ao WELL como ponto de partida para negociações. Demonstrar que padrões internacionais podem ser alcançados torna-se um diferencial competitivo.”

Ao reunir perspectivas técnica, regulatória e internacional, os dois especialistas apontam uma direção comum para o futuro das instalações saudáveis: integrar saúde, operação, gestão e estratégia empresarial para criar ambientes capazes de promover bem-estar e gerar valor para organizações e ocupantes.

 

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