Certificações, eficiência e pessoas

painel 2 | Small acts – Big impacts | Dia 06 AGO

O papel do facility management na construção de operações sustentáveis

Reunindo profissionais do Brasil e dos Estados Unidos, o painel 2 discutiu como mudanças incorporadas à rotina podem gerar resultados em sustentabilidade, eficiência operacional e gestão de pessoas. Com o tema “Pequenas ações, grandes impactos: impulsionando a excelência operacional por meio de decisões inteligentes”, o debate apresentou exemplos práticos de iniciativas implementadas em operações existentes e mostrou como certificações podem ajudar gestores a mensurar e comunicar resultados.

Na abertura do encontro, a mediadora Cibele Verasto destacou que oportunidades importantes de sustentabilidade podem estar presentes nas organizações sem serem identificadas. Segundo ela, o objetivo do painel era compartilhar experiências práticas e apresentar caminhos para a adoção de certificações. “Ao longo do painel, falaremos um pouco sobre como obter algumas certificações e os primeiros passos sobre isso. Será muito interessante e temos muito a compartilhar aqui”, afirmou.

A sustentabilidade começa na operação

O primeiro palestrante foi Paulo Jubilut, CEO da MilliCare Brasil. Ao apresentar sua visão sobre sustentabilidade, ele ressaltou a importância da integração entre fornecedores e gestores de facilities: “Se não tivermos vocês da área de facilities interagindo conosco, nunca iremos adiante com soluções e coisas que façam sentido”, disse.

Para Jubilut, a sustentabilidade está relacionada, antes de tudo, ao comportamento humano. “No meu entendimento, a sustentabilidade começa, e a principal sustentabilidade é, na mudança de atitude humana”, afirmou.

Ao comentar o trabalho desenvolvido pela empresa na área de higienização de carpetes, o executivo destacou a importância da troca de conhecimento entre mercado, fornecedores e profissionais da operação. “Eles têm conhecimento no que fazem e precisam entender nossas necessidades para podermos melhorar o produto”, explicou. Jubilut também fez um apelo aos profissionais presentes para que ampliem o diálogo com fornecedores. “O feedback é importante para melhorar o sistema e a cadeia”, declarou.

Casos práticos mostram resultados em consumo e impacto social

A segunda apresentação foi conduzida por Marúsia Feitosa, gerente de Real Estate & Workplace Solutions da Lenovo Brasil, que compartilhou iniciativas implementadas nas unidades da empresa e defendeu uma abordagem baseada em melhorias contínuas.

Segundo Marúsia, a sustentabilidade costuma ser associada a novos empreendimentos e a grandes investimentos, mas os resultados podem surgir de decisões incorporadas à gestão diária. “Alguns dos maiores impactos vêm de decisões muito menores, tomadas todos os dias por gerentes de facilities e equipes operacionais”, afirmou.

Ao apresentar o conceito adotado pela Lenovo, ela destacou que a sustentabilidade está relacionada ao entendimento da utilização dos espaços e à revisão de práticas consolidadas. “A sustentabilidade nem sempre começa com um grande orçamento. Ela começa com a compreensão de como as pessoas usam nossos espaços, desafiando processos antigos e buscando continuamente oportunidades de melhoria”, explicou.

Entre os exemplos apresentados, um dos destaques foi a substituição do processo convencional de lavagem de carpetes pelo método de limpeza com baixa umidade. A mudança permitiu reduzir o consumo de água em 96% e o consumo de energia em 99%, além de evitar a emissão anual de 1,6 tonelada de dióxido de carbono em uma das unidades da empresa.

Outro caso envolveu a substituição de produtos químicos pela utilização de água ozonizada. A iniciativa eliminou embalagens plásticas, reduziu riscos relacionados ao manuseio de produtos químicos e aumentou a eficiência dos processos de limpeza. Marúsia também apresentou a implantação de um biodigestor na fábrica da Lenovo em Indaiatuba, São Paulo. O equipamento eliminou o transporte de resíduos orgânicos para aterros sanitários e evitou a emissão anual de 93 toneladas de dióxido de carbono.

Ao abordar uma iniciativa relacionada à economia circular, Marúsia destacou o reaproveitamento de 326 cadeiras que seriam descartadas. “Essa foi uma grande iniciativa de sustentabilidade com impacto não apenas ambiental, mas social e comunitário”, afirmou.

Certificações mostram o desempenho das edificações

A terceira apresentação ficou a cargo de Kat Wagenschutz, diretora sênior de edificações existentes do U.S. Green Building Council. A especialista compartilhou experiências pessoais que influenciaram sua trajetória profissional e sua atuação na área de edificações sustentáveis. “. Eu pensava em ser arquiteta para causar um impacto positivo na vida das pessoas por meio do espaço construído, mas depois percebi que não era artista. Minha mãe, que era professora, sofreu com a Síndrome do Edifício Doente (Sick Building Syndrome); os produtos químicos de limpeza da escola a deixavam doente, causavam enxaquecas e ela não conseguia dar aulas. A combinação dessas experiências me levou à minha função atual, unindo o ambiente construído, o apreço pela natureza e o impacto na saúde humana”, relatou.

Ao se dirigir aos participantes, ela reconheceu a complexidade da atividade desempenhada pelos gestores de facilities. “Tenho enorme respeito pelos gerentes de facilities. Vocês são artistas em suas instalações”, disse.

Kat apresentou a evolução do sistema LEED O+M, criado em 2004 com o objetivo de disseminar práticas de gestão ambiental. Segundo ela, a certificação passou a priorizar a comprovação do desempenho operacional das edificações. “Percebemos que o setor já conhece as melhores práticas. Nosso papel evoluiu para ajudar vocês a comprovar e comunicar o desempenho real das edificações”, explicou.

Entre as ações recomendadas para os primeiros passos na certificação, ela destacou a realização de autoavaliações, o monitoramento da qualidade do ar interno e a adoção de programas de limpeza ecológica.

O protagonismo brasileiro nas certificações sustentáveis

Encerrando o painel, Felipe Faria, CEO do Green Building Council Brasil, apresentou dados sobre a participação brasileira no mercado internacional de certificações.

“O papel do Brasil no movimento global de construções sustentáveis é muito relevante”, afirmou.

Segundo o CEO, o país ocupa a quinta posição mundial em número de projetos certificados pelo LEED e reúne mais de 9 milhões de metros quadrados certificados distribuídos em 352 municípios.

Felipe também destacou o protagonismo brasileiro em iniciativas relacionadas ao desempenho operacional das edificações. “O primeiro projeto LEED Zero Energy do mundo foi certificado no Brasil. O primeiro LEED Zero Water do mundo foi certificado no Brasil”, lembrou.

Ao relacionar os casos apresentados durante o painel ao processo de certificação, Felipe reforçou a importância da inteligência aplicada à operação. “Quando se coloca inteligência na operação, abrem-se portas para tecnologia, eficiência, conforto e sustentabilidade”, afirmou.

Como mensagem final, Felipe destacou o papel estratégico dos profissionais da área: “Os profissionais de Facility Management são a chave para garantir que o edifício opere de acordo com os níveis de desempenho projetados na fase de construção.”

Ao longo do debate, os quatro palestrantes convergiram em um mesmo ponto: a sustentabilidade pode ser construída a partir de mudanças incorporadas ao cotidiano das operações. A soma dessas decisões, quando associada à gestão baseada em indicadores e ao acompanhamento do desempenho das edificações, amplia o potencial de impacto do facility management.

 

DEBATE

Comunicação e engajamento ampliam o impacto das mudanças

O debate com o público reforçou um dos temas centrais do painel: a implementação de iniciativas sustentáveis depende tanto da adoção de soluções técnicas quanto da capacidade dos gestores de facilities de envolver pessoas e demonstrar resultados.

 

Respondendo a uma pergunta da plateia sobre como conquistar o apoio da alta liderança para projetos estratégicos em um cenário de recursos limitados, Marúsia Feitosa afirmou que a confiança da diretoria em seu trabalho tem sido um fator importante para a condução das iniciativas na Lenovo.

Segundo Marúsia, a relação com a liderança está baseada na entrega de resultados e na autonomia para administrar os recursos já aprovados.

“A resposta honesta não é tão bonita. A liderança sênior no Brasil confia no meu trabalho e não me pede um detalhamento excessivo de cada item do orçamento. Eu tenho um orçamento aprovado e cabe a mim decidir como alocá-lo”, revelou.

Marúsia explicou que, após a implementação de cada projeto, a estratégia é comunicar os resultados a todos os colaboradores por meio de comunicados internos elaborados pela área de Real Estate & Workplace Solutions.

“Explicamos a todos os colaboradores porque fizemos a mudança: economia de energia, eficiência, custo zero e aumento da segurança da informação.”

Marúsia também destacou que a gestão da mudança exige adaptação às particularidades de cada operação. Como exemplo, citou a implantação do sistema de impressão segura por PIN, adotado em substituição à leitura por crachá RFID (que usa ondas de rádio para identificar cartões de forma automática e sem contato físico) devido às exigências das políticas internas de segurança da informação.

Para ela, o sucesso das iniciativas está associado à forma como as pessoas são envolvidas durante o processo. “O segredo é comunicação clara, empatia e flexibilidade para tratar exceções. Trabalhamos com pessoas e para pessoas”, lembrou.

Paulo Jubilut complementou a resposta ao destacar a importância do engajamento de todos os agentes envolvidos na operação. “O que a Marúsia faz com excelência é envolver todas as partes.”

Segundo Paulo, a implementação do novo processo de limpeza dos carpetes só foi possível porque diferentes áreas participaram da discussão. “Ela envolveu a empresa de limpeza terceirizada, a empresa de gerenciamento predial, o RH e a equipe interna. Ela colocou todos na mesma mesa para entenderem que faziam parte da mudança.”

O debate também abordou a relação entre certificações e indicadores relacionados ao bem-estar dos ocupantes. Ao responder à pergunta do especialista Leonardo Cozac sobre a inclusão de métricas como redução do absenteísmo e dos custos médicos no sistema LEED, Kat Wagenschutz explicou que as primeiras versões da certificação contemplavam alguns indicadores desse tipo. “Nos afastamos de créditos estritamente dependentes de dados de Recursos Humanos dentro do sistema de pontuação.” Segundo a diretora do U.S. Green Building Council, o tema continua sendo estudado pela entidade, que mantém iniciativas voltadas ao desenvolvimento de pesquisas e ferramentas capazes de medir os impactos humanos e financeiros das edificações.

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