Educação
O crescimento do mercado de Facility Management (FM) amplia a demanda por profissionais capazes de conectar pessoas, espaços, processos, tecnologia e sustentabilidade. Ao mesmo tempo, evidencia um desafio que acompanha a evolução da área: consolidar a identidade do Facility Manager como um gestor estratégico e não apenas como responsável pela contratação ou gestão de serviços.
Para o Prof. Moacyr Graça, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) desde 1975 e coordenador do MBA USP em Facility Management desde 2002, e o Dr. Sarel Lavy, professor do Department of Construction Science da Texas A&M University, nos Estados Unidos, a educação é o principal instrumento para fortalecer a profissão e preparar líderes capazes de responder às transformações do ambiente construído.
Uma identidade profissional construída pelo conhecimento
Na avaliação de Moacyr Graça, a dificuldade de distinguir o Facility Management dos serviços de facilities decorre da própria diversidade de interpretações sobre os fundamentos da profissão.
“Facility Management é um setor em desenvolvimento e ainda não consolidado internacionalmente enquanto atividade profissional. A educação deve estruturar e homogeneizar o conhecimento comum, reconhecer que FM é uma atividade em constante mudança e habilitar profissionais para enfrentar problemas complexos.”
O professor defende que a formação seja tratada como um sistema educacional, com diferentes níveis de ensino, integração entre teoria e prática, incentivo à pesquisa e aproximação entre universidades e organizações.
Sarel Lavy observa que essa confusão reduz uma função estratégica a uma atividade operacional.
“Não estamos formando supervisores de limpeza. Estamos formando arquitetos do desempenho organizacional.”
Segundo ele, o ensino precisa abandonar uma visão fragmentada e desenvolver nos estudantes pensamento sistêmico, capacidade de geração de valor, mediação entre diferentes áreas da empresa e domínio de conceitos como economia circular e governança.
Universidades diante de um campo multidisciplinar
A natureza multidisciplinar do FM exige que universidades integrem conhecimentos tradicionalmente separados.
Para Moacyr, esse desafio passa pela colaboração entre departamentos e pela construção de cursos que eliminem barreiras entre diferentes áreas do conhecimento.
“As unidades devem reconhecer a importância da sua contribuição parcial para a criação de cursos multidisciplinares, mantendo o foco no resultado do sistema como um todo em benefício dos estudantes e da sociedade.”
Ele também defende programas em diferentes níveis de formação, desde graduação até doutorado, além de treinamentos voltados aos níveis estratégico, gerencial e operacional, sempre considerando as necessidades locais e a atualização permanente do corpo docente.
Na mesma direção, Sarel afirma que o modelo tradicional de ensino compartimentalizado já não atende às necessidades do mercado.
“Precisamos parar com esse modelo de educação em silos. Para formar líderes, é necessário sintetizar conhecimento, não apenas cumprir disciplinas.”
Entre as experiências consideradas essenciais estão projetos que acompanhem todo o ciclo de vida dos edifícios, formação em análise preditiva de dados, integração entre comportamento humano e ambiente construído e desenvolvimento da capacidade de transformar informações técnicas em decisões de negócios.
Aproximar academia e mercado
Os dois professores reconhecem que ainda existe uma distância entre a velocidade das mudanças do mercado e a formação oferecida pelas instituições de ensino.
Para Moacyr, parte dos cursos ainda prepara profissionais para desafios que já ficaram no passado.
“Muitos programas educacionais estão ensinando hoje o conhecimento de ontem. Evoluir sempre, parar jamais.”
Ele defende investimentos em inovação, pesquisas desenvolvidas em parceria com empresas, participação ativa dos docentes no ambiente profissional e uma postura permanente de aprendizagem por parte dos próprios profissionais.
Sarel também identifica uma defasagem importante.
“A indústria pede inteligência conectada e gestão financeira, enquanto muitos programas continuam concentrados em tarefas operacionais.”
Na sua avaliação, novas exigências regulatórias, o avanço das tecnologias digitais e a aposentadoria de profissionais experientes tornam indispensável um modelo de aprendizagem contínua, apoiado por forte integração entre universidades e empresas.
Atrair novos talentos para uma carreira estratégica
Outro desafio apontado pelos especialistas é fazer com que estudantes escolham o Facility Management desde o início da formação universitária.
Para Moacyr, o reconhecimento da profissão depende da própria atuação dos profissionais e da demonstração prática do valor agregado que o FM entrega às organizações.
“A valorização profissional depende fundamentalmente da maneira como os profissionais expressam sua competência e como se comportam no exercício profissional.”
Ele acredita que eventos, estágios, workshops e parcerias com associações podem ampliar a compreensão sobre a carreira e estimular novos talentos.
Sarel considera que também é necessário mudar a narrativa sobre a profissão.
“Precisamos deixar de apresentar o FM como manutenção e mostrá-lo como um dos principais instrumentos para enfrentar desafios como mudanças climáticas e bem-estar organizacional.”
Segundo ele, tecnologias como inteligência artificial, Internet das Coisas e Digital Twins aproximam a profissão dos interesses das novas gerações, especialmente quando os estudantes conseguem aplicar essas ferramentas em projetos reais ainda durante a universidade.
O perfil do líder que o setor procura
Quando projetam o futuro da profissão, os dois especialistas convergem na defesa de uma formação que ultrapasse competências técnicas.
Moacyr considera indispensável desenvolver visão sistêmica, planejamento, compreensão do comportamento humano, criatividade, capacidade de adaptação e entendimento profundo sobre a essência do Facility Management.
“O profissional do futuro deve ter perfil generalista e humano para lidar com os recursos físicos visando à melhoria da qualidade de vida das pessoas.”
Sarel acrescenta competências ligadas à liderança executiva, domínio financeiro, análise preditiva, governança ESG, negociação e comunicação estratégica.
“Quero formar um arquiteto estratégico de ecossistemas, capaz de transformar dados em decisões, conectar pessoas, ativos e estratégia e enxergar o ambiente construído como um patrimônio humano, econômico e ambiental.”
Embora partam de perspectivas diferentes, ambos apontam a mesma direção: o fortalecimento do Facility Management dependerá menos da evolução das tecnologias e mais da capacidade de formar profissionais preparados para integrar conhecimento, liderar mudanças e gerar valor para organizações e sociedade.
