Segurança como estratégia: o novo papel dos facilities managers no Brasil

Segurança

A segurança nas organizações de hoje já não é definida apenas pela prevenção de acidentes ou pela proteção patrimonial. À medida que os riscos se tornam mais complexos, abrangendo desde eventos climáticos extremos e ameaças cibernéticas até saúde ocupacional e continuidade dos negócios, a segurança passou a desempenhar uma função estratégica no Facility Management. No Brasil, essa mudança reflete uma transformação cultural mais ampla, que aproxima a profissão das melhores práticas globais ao integrar pessoas, processos e ativos para fortalecer a resiliência das organizações.

Essa evolução pode ser observada no trabalho de duas profissionais da Shell Brasil. Heloise Carneiro é especialista em Saúde, Segurança, Segurança Patrimonial e Meio Ambiente (HSSE), com foco em operações de Real Estate e na gestão de equipes multiculturais na América do Sul. Brenda Fuly lidera a área de Proteção de Ativos da empresa, sendo responsável pela segurança patrimonial, resiliência operacional e gestão de riscos. Ela também integra o Board de Representantes de Segurança do Overseas Security Advisory Council (OSAC).

Construindo uma cultura de prevenção

Para Heloise Carneiro, a maior mudança ocorreu quando a segurança deixou de ser vista como responsabilidade exclusiva das equipes de HSE e passou a fazer parte da estratégia mais ampla das empresas. “A maior mudança foi entender que segurança vai muito além de evitar acidentes. Hoje, quando falamos em Facility Management, estamos falando de cuidar das pessoas, dos processos e da continuidade do negócio.”

Como resultado, o papel do Facility Manager se expandiu muito além da operação dos edifícios. Hoje, esse profissional reúne responsabilidades relacionadas à saúde ocupacional, gestão de riscos, bem-estar, sustentabilidade e experiência dos usuários dos espaços. Decisões do dia a dia, como o planejamento da manutenção, a gestão dos ambientes e o gerenciamento de fornecedores, influenciam diretamente tanto a segurança quanto o desempenho operacional.

Embora o Brasil conte com um sólido arcabouço regulatório, Heloise acredita que o maior desafio é ir além do compliance e transformar a segurança em parte da cultura organizacional. “Cumprir a legislação é essencial, mas, sozinho, não garante um ambiente seguro. É preciso que a liderança esteja comprometida, que as equipes sejam capacitadas e que a gestão de riscos faça parte das decisões da empresa.”

As organizações que conseguem incorporar a prevenção às suas operações diárias colhem benefícios que vão além da redução dos acidentes de trabalho. Segundo Heloise, uma liderança engajada, a participação dos colaboradores e uma comunicação contínua criam um senso mais forte de responsabilidade compartilhada em toda a organização. “Construir uma cultura de segurança sólida significa fazer com que as pessoas ajam de forma segura mesmo quando ninguém está observando.”

Essa mesma lógica também orienta a avaliação de desempenho. Monitorar indicadores de saúde ocupacional, quase acidentes, treinamentos, inspeções e percepção de riscos permite às organizações identificar vulnerabilidades antes que elas se transformem em interrupções operacionais. “Em um ambiente corporativo cada vez mais orientado por dados, investir em HSE significa investir na continuidade do negócio.”

Da proteção patrimonial à resiliência operacional

À medida que a prevenção passa a fazer parte da cultura organizacional, o conceito de proteção de ativos também evolui. Para Brenda Fuly, a principal mudança foi reconhecer que as pessoas, e não as instalações, são o ativo mais valioso de uma organização.

“Hoje, o ativo mais valioso reconhecido são as pessoas. Antes, o foco estava em proteger bens físicos e infraestrutura.”

Essa perspectiva reúne segurança física, tecnologia, análise de riscos, resposta a emergências e continuidade dos negócios em uma estratégia única. Em vez de reagirem apenas depois que um incidente ocorre, as organizações concentram seus esforços na identificação de vulnerabilidades, na realização de treinamentos regulares e no fortalecimento da capacidade de resposta antes que as interrupções afetem as operações.

“Essa integração se traduz em rotinas de monitoramento, treinamentos periódicos e uso de tecnologia para antecipar e mitigar riscos.”

Atuar em uma empresa global também proporciona uma visão mais ampla sobre as diferenças entre as práticas de segurança adotadas em diferentes países. Brenda observa que as organizações nos Estados Unidos normalmente operam dentro de uma cultura de prevenção consolidada, apoiada por procedimentos padronizados, auditorias rigorosas e exercícios regulares de resposta a emergências. Segundo ela, o Brasil avançou significativamente, embora muitas organizações ainda estejam em processo de transição de um modelo reativo para uma abordagem mais preventiva.

“Apesar das diferenças, ambos os modelos oferecem aprendizados valiosos. O Brasil tem avançado de forma importante na integração entre pessoas e processos, enquanto os Estados Unidos se destacam pela disciplina e padronização.”

À medida que os riscos físicos, cibernéticos, climáticos e geopolíticos se tornam cada vez mais interligados, os Facility Managers precisarão desenvolver um conjunto mais amplo de competências. Para Brenda, a profissão exigirá maior domínio de tecnologias, análise de dados e gestão integrada de riscos para apoiar estratégias abrangentes de continuidade dos negócios.

“A segurança precisa sair do local no qual é vista como despesa e ser vista como investimento, como uma área que entrega redução de custos, pois a prevenção evita perdas financeiras e danos à reputação.”

Embora abordem o tema por perspectivas diferentes, as duas especialistas chegam à mesma conclusão: a segurança tornou-se uma função central da gestão, capaz de conectar pessoas, ativos e desempenho organizacional. Mais do que atender aos requisitos regulatórios, o Facility Management desempenha hoje um papel fundamental na continuidade dos negócios, na governança e na construção de organizações mais resilientes. À medida que a profissão evolui, a experiência brasileira reflete um movimento global em direção a uma abordagem mais integrada e estratégica da segurança.

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